Mini Histórias

Capítulo 25 - Luneta

A turminha estava no quintal com a luneta do pai de Helena. Não era muito potente, mas dava para o gasto. Queriam encontrar um aglomerado aberto, chamado caixinha de joias, próximo à constelação do Cruzeiro do Sul.

 

Helena adorava esses dias, era sua chance de aparecer, falando sobre os conhecimentos de astronomia que aprendia com seu pai. Os outros já sabiam que isso ia acontecer, mas gostavam de aprender mais coisas sobre as estrelas.

 

— Primeiro, encontramos Alpha e Beta Centauri, que apontam para o Cruzeiro do Sul, esses dois são visíveis a olho nu. Mas a caixinha de joias não. Vamos precisar da nossa luneta. Disse o pai de Helena, ajustando o equipamento. Para ele, isso era bem fácil. No seu trabalho, precisava de muito mais cálculos e raciocínio. Ali, estava se divertindo com as crianças.

 

— Conseguem ver? Ele queria saber. — Agora vou focar numa das estrelas do Cruzeiro do Sul, conhecida como Mimosa. O aglomerado aberto chamado de NGC 4755. Disse Bernardo.

 

Os primos se confundiam com tantas siglas, mas Helena estava lá para explicar tudo.

 

— Todas as estrelas têm seu nome oficial e seu apelido, assim como as plantas e os animais. Quem estuda sério, precisa saber a catalogação séria.

 

— Ah, ‘tá… Entendi. Andressa estava habituada a ver os nomes científicos dos animais, no seu interesse por biologia.

 

— Os aglomerados são as coisinhas mais lindas de se ver pela luneta ou telescópio. Helena confidenciou.

 

— Bem, eles são enormes, não são coisinhas. Mas é verdade, são lindíssimos. O meu favorito é o aglomerado globular Omega Centauri, ele tem 10 milhões de estrelas. Dez milhões de sóis. Parece um enxame de abelhas vivas e zunindo. Disse seu pai.

 

— A caixinha de joias é bem menor, não é? Perguntou Helena.

 

— Sim, cerca de apenas 100 estrelas, cem sóis. A gente demoraria 20 anos, caminhando na velocidade da luz, pra chegar até ele. Para chegar a Omega Centauri, a gente demoraria 150 anos-luz. Uau! Bernardo também era muito animado.

 

Quando ele ajustou a luneta, todos puderam ver. A imaginação foi longe. Cada uma das estrelas que conseguiam ver parecia ter uma cor diferente.

 

— Tio, por que as estrelas parecem ter cores diferentes? Perguntou Carolina.


— Elas têm cores diferentes. Quer dizer, a luz tem comprimento de onda, quando o comprimento de onda é mais largo, as cores vão pro laranja e vermelho, até o infravermelho, que o olho humano não enxerga mais. O comprimento de onda com a temperatura mais elevada, nós vemos como azul, quando ele chega no ultravioleta, não enxergamos mais. Disse Bernardo.


— A maioria dos pássaros enxerga. Disse Andressa.

 

— Muito bem. As aves, morcegos, insetos, abelhas… E quem enxerga o infravermelho? Perguntou Bernardo.

 

— Isso é mais raro. Morcegos, insetos como besouros, serpentes. Eles enxergam calor. Respondeu Andressa, surpreendendo a todos.

 

— Morcegos estão em tudo. Achei que eles eram bons no auditivo. Helena não gostou que sua prima estava acertando todas as respostas e perguntou uma que, com certeza, ela não saberia responder.

 

— E o desvio para o vermelho das estrelas? Helena desafiou. Ninguém sabia a resposta, a não ser ela mesma, seu pai a ensinou.

 

Bernardo suspirou, porque entendeu que ela tinha ficado com ciúmes da prima.


— ‘Tô vendo que ninguém está interessado nas minhas belíssimas estrelas… Ele reclamou. —Me arranjem qualquer pedacinho de tecido que dê para esticar.

 

Como numa gincana, as crianças correram para o quarto de costura da avó, acharam um pedaço de tecido elástico e voltaram saltitantes.

 

Bernardo pegou uma caneta e marcou o desenho de uma onda, com uma caneta, subindo e descendo pelo comprimento do elástico, fazendo picos e vales bem juntinhos.

 

— Com certeza vocês já ouviram que o universo inteiro se expande como um balão de gás. Bernardo explicou.

 

— Claro. Todo mundo sabe disso. Respondeu Rafael, mesmo sem saber o que estava dizendo. Não queria ficar para trás na competição com as primas.

 

— Isso. Agora, estiquem o tecido elástico. O que acontece com meu desenho? As ondas que eram pontudas ficam longas, as subidas e descidas são suaves. Isso é o desvio para o vermelho. Como as ondas ficam compridas, a luz das estrelas é vista avermelhada, quando elas se afastam. E se o pico for  fininho, agudo? Ele perguntou.

 

— Vemos no espectro do azul. É quando se aproximam. Os picos ficam pertinho uns dos outros! Carolina concluiu, deixando Helena mais brava ainda. Essa era a resposta que ela queria dar ao pai.

 

Hoje o bicho ia pegar entre as primas!