Vale dos Pinheiros

Um universo expandido do livro — com glossário, curiosidades e conteúdos exclusivos para quem quer ir além.


F. A. Rovere

  • Capítulo 12 – Árvore Genealógica

    — O que você tá fazendo? Helena perguntou para Rafael que estava desenhando no chão da sala.

    — Fazendo minha lição de férias, a árvore genealógica da nossa família. Ele respondeu. — E isso parece uma árvore pra você? A menina desafiou.

    — Comecei com a vovó e o vovô e daí fui descendo, meu pai, seu pai e nossa tia, depois a gente.

    — Mas está errado, isso ‘tá mais pra pirâmide do que árvore. E cadê sua tia Rafaela, irmã da sua mãe? E seus outros primos? E seus outros avós? Ela perguntou.

    — Mas aí vai ficar uma bagunça. Vai ficar muito difícil. Ele reclamou.

    — Porque você ‘tá fazendo invertido. Você tem que começar de você e ir subindo a árvore, para os seus pais, tios, até chegar nos avós dos dois lados, os pais do pai e os pais da mãe.

    — Por isso que não devia ter lição de férias. Não quero ter que pensar tudo isso. Ele se revoltou, fechando o caderno.

    — Tem razão. A minha escola não passa lição de férias. Depois a gente pede pra a vovó ajudar a montar. Agora, vamos jogar videogame? Ela pediu e os dois largaram a lição pra trás.

  • Capítulo 14 – Bumba-meu-Boi

    Os primos estavam animados para a festa junina desse ano da escola de Rafael e Andressa, tudo porque ia ser num lugar diferente. O pátio da escola estava passando por uma reforma de emergência e a festa foi transferida para um parque próximo, onde tinha circuito de arvorismo com uma tirolesa no final.

    Carolina, maior fã de tirolesa, e Rafael contavam os minutos para a hora da festa, enquanto Andressa estava ocupada, repassando seu papel de filha do dono da fazenda, na encenação do Boi Bumba que sua classe iria apresentar. Helena só queria dançar quadrilha e comer pé de moleque.

    Chegando ao parque, cada um correu pra sua atividade.

    Andressa foi terminar de colocar a fantasia e rever suas falas. Tinha lutado para interpretar esse papel, justamente porque a sinhazinha, que adorava o boi, forçava o capataz da fazenda a ressuscitá-lo com ajuda de um pajé.
    Helena pediu o dinheiro de papel (dinheiro falso que só funcionava na festa) para comprar pé de moleque e Carolina, junto com Rafael, correram para a fila do arvorismo, a mais lotada de todas.

    Após ficar enjoada de comer muitos doces, Helena resolveu encontrar seus primos na fila. Sem conhecer muita gente, porque essa festa não era da sua escola, e cansada de rodar à toa. Seu plano nem era furar a fila, nem nada, muito menos subir na árvore porque tinha medo de altura, mas quando chegou perto, acabou se enrolando.

    A equipe, com pressa em atender todas as crianças, entrou na linha de montagem coordenada pelos professores, que logo colocaram a cadeirinha de escalada, o capacete e os equipamentos de segurança. Um pouco desesperada, mas sem querer admitir o quanto era medrosa, Helena se manteve firme, como se realmente fosse subir na árvore. Estava prontinha e seus primos a incentivavam:

    — Que bom que você tomou coragem! Vai adorar! Comemorou Carolina.

    — Eu te ajudo. No começo, você não precisa olhar pra baixo! Ensinou Rafael.
    Acontece que a coisa ali era complicada. Por mais que ela quisesse, o emocional não deixou. Foi quando chegou no terceiro degrau, na altura da cintura das crianças, que ela travou e ninguém no universo conseguiu convencê-la a prosseguir.

    — Gente, me soltem! Socorro!!! Ela gritava, como se estivesse sendo obrigada a passar algum perigo.

    — Tudo bem! Fica para uma próxima! Carolina foi carinhosa e apoiou, mas Helena não poderia esperar a mesma atitude de Rafael.

    — Medrosa! Pópópó. Ele imitava uma galinha enquanto a provocava. Helena fez uma cara feia, mas logo se desvencilhou dos equipamentos e correu bem longe dali, buscando a proteção da prima mais velha.
    Nos bastidores da apresentação, encontrou Andressa muito compenetrada.

    — Posso ficar com você? Não conheço ninguém na festa. Helena choramingou.

    — Claro que sim… Mas acho que não vão deixar você participar da presentação porque você nem ensaiou. Andressa a acolheu. — Qualquer coisa, você me espera aqui, nos bastidores.

    — Tudo bem, mas talvez eles me deixem fazer o papel de ajudante do pajé. Conheço bem essa história. Disse ela, para não ser deixada de lado.

    — Tá certo. O pajé não precisa de assistente. Disse ela, vendo seu amigo, já todo arrumado em suas roupas de penas. A cara de Helena deve ter sido muito ruim mesmo, porque Andressa mudou de ideia. Não conseguia ver ninguém chorando e Helena deixava rolar umas lágrimas sentidas.

    — Talvez eles tenham algum cocar sobrando, e você vai calada, fingindo de assistente, seguindo e copiando a dança do pajé. Disse a prima mais velha.

    — Eu topo! Helena sorriu.

  • Capítulo 22 – O Circo

    — Vó, me ajuda a criar um abaixo assinado virtual? Andressa entrou na cozinha com o celular que tinha acabado de ganhar adiantado, pelo dia do seu aniversário.

    — Nossa. Não esperava por isso. Pensei que você ia fazer um dos desafios das redes sociais ou filmar uma dancinha com seus primos.

    — Foi porque eu descobri, que ainda em metade dos estados brasileiros, pode ter animal vivo no circo. Não é o lugar deles. Quero fazer um abaixo assinado pra que seja proibido em todos os lugares.

    — Não estava sabendo. Quando era criança, cheguei a ver os animais no circo, mas nunca me senti muito à vontade com isso, embora achasse bacana. Gostava dos trapezistas e dos mágicos.

    — Eles estão sempre viajando e não têm condições de cuidar direito dos animais. A menina choramingou.

    — Será? Pode ser que seja uma família que cuida bem e você pode interferir numa coisa que ainda não entende direito. Além das pessoas que nunca têm direito de ver animais. Tudo varia muito de acordo com o ponto de vista. A avó argumentou.

    — Sim, cada um tem o direito de defender o seu lado. O meu, claro, é o mesmo dos animais. A menina disse, pisando firme, e a avó se surpreendeu com a atitude tão madura e resoluta. Hoje, com a internet, com vários jovens defendendo a ecologia e os animais, mesmo as crianças têm maturidade nesse assunto.

    —Tá certo, vou te ajudar como puder. A avó até largou o que estava fazendo e sentou-se do seu lado para entender como funcionava o aplicativo.
    Nisso, Rafael chegou, querendo mais sorvete, estava um dia quente e abafado. O menino ficou curioso e, quando ela explicou o que estava fazendo, adorou e teve uma ideia: organizarem um circo no quintal da avó. Saiu correndo para chamar Helena e Carolina.
    Enquanto Andressa continuava séria ao lado da avó, o menino foi chamar as meninas, e fazer sua sugestão.

    — Vamos montar um circo? Vamos fazendo só nós. A Andressa está ocupada agora, mas ela não precisa treinar nada, vou deixar ela como apresentadora. Disse o menino, despreocupado.

    — Faz sentido, ela, como a boa mandona que ela é, vai gostar de ser mestre de cerimônias. Helena concordou.

    — E o que vocês vão ser? Carolina perguntou.

    — Como a Nebula e a Nébula estão aqui com a gente, quero ser a domadora. Vou mostrar como elas são treinadinhas. Disse Helena, lembrando de suas duas cachorrinha, que por conta de seus capricho, tinham o mesmo nome. Variando só a acentuação.

    — Acho que a Andressa não vai aprovar, ela não gosta de animais no circo.

    — Então vou ser a mágica. A menina respondeu. Carolina, você sabe onde a vovó guardou aqueles apetrechos de mágico?

    — Não faço ideia. Só lembro do truque do lenço infinito, um emendado no outro, sabe qual é? Carolina balançou a cabeça. Eu vou andar de perna de pau, quero ser equilibrista. Na verdade, queria ser trapezista, mas aqui no quintal não dá pra montar um trapézio.

    — E você, Rafa? Perguntou Helena.

    — Quero ser um palhaço malabarista, vou fazer minhas palhaçadas andando de skate. O Leo pode fazer os efeitos sonoros com a bateria dele.

    — Amei a ideia! Será que ele aceita? Carolina ficou na dúvida.

    — Tendo que usar a bateria, ele aceita qualquer serviço, mas talvez queira cobrar um cachê… Helena foi bem objetiva.

    — Beleza, vou começar fazendo pipoca pra servir para a plateia. Disse Rafael, voltando pra a cozinha enquanto as meninas ficaram pensando em quem seria a plateia.

  • Capítulo 8 – Tempestade de Areia

    Nessa manhã, as meninas começaram o dia pedindo coisas. Primeiro precisavam de um vidro de maionese, vazio. Helena infernizou até que a avó mudou a maionese para um recipiente de plástico. Carolina já tinha separado os ingredientes: uma colher de detergente de coco branco e duas colheres de vinagre. Andressa desenhou a figura do saci que pretendiam colar na tampa.

    As meninas tinham visto uma dessas experiências que viralizam nas redes sociais: construir um redemoinho de saci. De acordo com o folclore, o saci viaja num redemoinho. Depois de misturar tudo, era só chacoalhar com movimentos circulares, pro ele aparecer debaixo do saci.

    Rafael, o “sobremesariano” (viciado em doce), entrou na cozinha atrás do bolo de chocolate perfeito que a avó preparava, com aquela casquinha crocante de chocolate e açúcar, quando viu as meninas com o vidro na mão:

    — Nossa! Vocês conseguiram capturar um saci? Jogaram a peneira em cima do redemoinho? Como conseguiram fechar ele dentro do vidro? O menino falou, impressionado. As meninas iam explicar, quando ele começou a rir:

    — Já vi esse truque na internet. Fica bem bacana. Ele disse. — Os gênios das mil e uma noites também podem ser presos em garrafas, lâmpadas ou em anéis. Será que eles seriam parentes dos sacis? Ele perguntou bem sério. Só pode. O saci só pode ser um tipo de gênio!

    Carolina franziu as sobrancelhas, pensando que, por mais que parecesse maluco, fazia muito sentido:

    — Pela literatura, eles não têm nenhum parentesco, mas o que você disse está certo. — Será que a gente conseguiria capturar um gênio do tipo do Aladim? Helena começou a viajar nas suas ideias malucas.

    — É preciso astúcia, encantamentos, magia. Acho que dá pra prender um deles, sim. Carolina concordou.

    — Ia ser demais. Eles podem atender três pedidos e nós somos quatro. Andressa se preocupou. — Todos os desejos vão ter que ser em comum acordo.

    — A gente devia tentar. Aos invés de jogar a peneira em cima de um redemoinho de vento, a gente devia jogar num redemoinho de areia. Carolina respondeu, confiante.

    — Vocês dois são bem tontinhos. Não tem tempestade de areia por aqui. Só no deserto do Saara. Andressa explicou.

    — Ouvi no jornal que teve uma aqui perto, na área rural das plantações. Numa época de muita seca. Helena argumentou, agitada.

    — Isso só acontece devido às mudanças climáticas. Que loucura. O normal das tempestades de areia é nos desertos, como no Saara e no Atacama. Explicou Carolina.

    — Olha o que vi aqui no laptop da mamãe, os ventos podem ser de 100 km por hora e no Saara, as tempestades transportam até 260 milhões de toneladas de areia por ano. Completou Andressa.

    — Verdade. Já ouvi que até teve um feito de fogo, no deserto. Rafael se arrepiou.
    — Ou em Marte. Dizem que lá, toda hora, tem tempestade de areia. Lembrou Helena.

    — E os camelos e dromedários são os animais melhor adaptados às tempestades de areia. Eles têm uma terceira pálpebra que fecha na horizontal e protege das partículas de poeira! Andressa se animou. — O pelo, as patas, a gordura que eles armazenam nas corcovas, tudo adaptado pra viver no deserto!

    — Eles deviam mandar os camelos para começar a colonizar Marte! Rafael não resistiu.

    — Tonto, lá tem muita radiação ultravioleta, precisamos viver debaixo da terra, seria melhor mandar um tatu. Helena suspirou. — ‘Tá mais fácil você capturar um gênio!

    A avó, que estava ouvindo a conversa de longe, começou a cantar uma música “Reconvexo” do Caetano Veloso: — Eu sou o vento que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma. Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia.

  • Capítulo 7 – Castelo

    Esse foi um dia de muita confusão, de disputa pelas almofadas do sofá, travesseiros, cobertores, colchas e toalhas da casa. Os adultos tinham saído, deixando apenas os primos, sozinhos, na casa de praia.

    Não estava chovendo, o céu, um pouco nublado, poderia ter dado praia, mas as crianças não estavam autorizadas a ir sozinhas para a praia, sem algum responsável acompanhando, e o Leonardo ia participar de um campeonato online. Juraram se comportar, e o mais velho aceitou ficar responsável pelos menores.

    Leonardo poderia ter evitado as brigas e colocado ordem no pedaço, mas estava tão distraído, envolvido pelas tarefas do seu campeonato de videogame, que nem viu as coisas escalarem. Tudo começou com Rafael, decidindo construir um forte ao redor do primo mais velho, como se ele fosse uma estátua. Depois, provocou as meninas, dizendo que era um forte só para osmeninos, bem no centro da sala de TV, interrompendo a passagem.

    — E se eu quiser assistir um filme? Helena reclamou.

    — Assiste no computador da vovó. Ele disse, empurrando a menina pra fora do tapete.

    — Então, também quero ajudar. A menina pediu.

    — Hoje não, vocês meninas fazem muito mimimi, hoje sou só eu e o Leo. Ele respondeu, empilhando mais almofadas.

    — O Leo tá jogando, nem sabe o que você está fazendo. A menina bufou, deixando o primo sozinho.

    Dali a cinco minutos, reapareceu na frente da mesa do jantar, carregando roupa de cama e travesseiros. Tinha convencido Andressa a fazer um palácio de princesa, onde iriam servir chá da tarde com bolo e suco no lugar do chá.

    Foi aí que a coisa ficou feia. O menino queria os travesseiros e lençóis delas e elas queriam as almofadas e toalhas deles, quer dizer, do forte do Rafael.

    — Eu tive a ideia primeiro e preciso dessas coisas todas que vocês trouxeram pra fazer uma cabana de comando no centro do forte.

    — Huff!!! Helena bufou. —Você não me deixou ajudar nem participar, agora vamos fazer uma brincadeira muito mais legal, com comida de verdade, e você ficou com ciúmes. Claro que seu forte nem precisa de cabaninha, mas nós precisamos de paredes pra separar os nossos dormitórios da sala.

    — Está na hora de você aprender a dividir as coisas, mamãe vive dizendo isso. Não é tudo seu. Andressa fez um bico, reclamando com o irmão.
    Daí pra frente, ninguém conseguiu construir mais nada, só um roubando as coisas do outro e trazendo mais e mais coisas; fosse da cozinha, dos dormitórios, do jardim, para ampliar seus domínios.

    Carolina lia quietinha no seu canto, mas seus primos precisavam, desesperadamente, da rede onde estava deitada. Quando eles correram para roubar seu apoio, foi preciso dar um basta:

    — Até você, Andressa? A casa estava do avesso! Tudo espalhado: lençóis das camas, toalhas do banheiro e agora,
    tinham decidido pegar panelas e potes. Reviraram a cozinha também.

    — Foi o Rafael que começou! Ele não quer que a gente ajude na construção do forte! Helena esgoelou.

    — A culpa foi delas. Preciso de uma cabana de comando atrás do forte, e elas tiraram tudo de mim pra fazer o palácio.

    — Quer dizer que esse é o problema? Carolina fez a pior cara desse mundo. — Por que vocês não transformam o palácio num castelo? A menina sugeriu.

    — E qual a diferença? Rafael encolheu os ombros, irritado.

    — Nossa, lembrei! Andressa colocou a mão na cabeça. — Castelo é um palácio cercado por um forte!

    — Isso! E o que vamos usar pra ser o fosso que protege o castelo? Perguntou Carolina, entrando na brincadeira.

    — Tenho uma ideia! Rafael gritou, sumindo pelo corredor. Lógico que tudo isso tinha um potencial explosivo para mais bagunça, mas Leonardo continuava em outra dimensão, passando as etapas do seu jogo.

  • Capítulo 9﹘Saruê

    — Vó, vó, vem cá! A Belinha não está bem! — Andressa foi cutucar a avó, que dormia tranquilamente no quarto ao lado.
    Belinha era a cachorrinha Lhasa que Andressa ganhara aos oito anos, quando decidiu ser veterinária. Normalmente, eles não levavam os animais de estimação para a casa de praia, porque eram muitos e causariam tumulto. Mas, desta vez, Belinha foi liberada, pois não estava completamente bem de saúde e precisava de mais cuidados.

    — Oi, querida… Como assim? A Belinha não consegue dormir? — a avó perguntou, ainda tentando entender o que estava acontecendo.

    Eram umas duas da manhã. A avó levantou com sono, calçou os chinelos e colocou um roupão sobre a camisola. Andressa continuava aflita.

    Quando entraram no quarto, viram Carolina e Helena acordadas em suas camas. Belinha não parava de latir, olhando para a janela através da cortina fechada.

    — Fez bem em me chamar. Ela está muito agitada mesmo… Deve ter algum animalzinho do lado de fora, no jardim — disse a avó.

    Agora, mais atentas, ouviam um tipo de guincho, o chamado de algum animal silvestre.

    Com cuidado, a avó abriu a cortina e logo viu qual era o problema: um saruê estava em frente ao vidro, reclamando alguma coisa com seus gritinhos.
    Helena, assim que o viu de relance, saiu correndo do quarto e foi se esconder na sala, como se corressem grande perigo.

    Carolina preferiu ficar e ajudar.

    — O que será que ele quer? Parece que está procurando alguma coisa aqui dentro.

    — Segura a Belinha — pediu a avó.

    Andressa segurou sua cachorra, enquanto Carolina acendeu a luz e começou a procurar pelo que o saruê parecia estar atrás.

    — Aqui! Aqui no banheiro! — Carolina chamou.

    Deitado na parte côncava da pia, estava um filhotinho de saruê muito atrevido.

    — Ah, meu Deus! Que coisa mais linda! — Andressa se encantou. — Helena, vem aqui conhecer que gracinha é o filhotinho!

    — De jeito nenhum! É feio demais, parece um ratão gigante — disse a menina, arrepiando-se toda, de cima do sofá da sala.

    — Você devia vir até aqui pra ver como é bonitinho… Pra vencer esse medinho! — a avó chamou, sorrindo.

    Mas Helena também sabia ser teimosa quando queria e continuou encolhida no sofá.
    No banheiro, a avó pegou uma toalha, pois não queria machucar o bebezinho nem retirar o cheiro dele. Muito habilidosa, conseguiu pegá-lo com cuidado e colocou-o para fora, em frente à sua mãe.

    Na mesma hora, a mamãe saruê mudou de atitude: em vez de guinchar e arreganhar os dentes, apenas colocou o bebê nas costas e sumiu no meio da mata.

    — Pode voltar, Lelê! O bebê já foi resgatado! — Carolina gritou para a sala.

    — Parabéns, Belinha! Você salvou a vida do bebê saruê! — Andressa encheu Belinha de carinho, muito orgulhosa.

    Helena voltou, meio sem graça.

    — Eu não acredito como você é bobinha! Perdeu a chance de ver o bichinho mais lindinho! — disse Carolina.

    — É feio, tem cara de ratão e rabo de rato — Helena reclamou.

    — E qual o problema de ser rato? Todos os animais são úteis na natureza — Andressa bufou, sempre defensora dos bichinhos. Para ela, não havia bicho ruim.

    — É como barata… Tenho nojo porque ela é nojenta — Helena franziu o nariz.

    — Nada disso. A barata alimenta muitos animais maiores e é a única capaz de transformar até matéria inorgânica em orgânica — tipo plástico em comida. O que é indigesto para outras criaturas, elas conseguem transformar, como papel, madeira, cola, tecido e até cabelo. Ajudam na polinização e também liberam nitrogênio no solo, fortalecendo as plantas — explicou Carolina.

    — Bleah! Nojento. Prefiro que as abelhas polinizem tudo! E os morcegos-vampirinhos? Tenho medo… Tem os que chupam sangue.

    — A maioria absoluta dos morcegos só come frutas. É muito raro o morcego que morde animais. A maior parte das 1.300 espécies se alimenta de frutas ou insetos. No entanto, há três espécies que se alimentam de sangue.

    — Aargh!!! Então eles existem mesmo! — a caçula reclamou.

    — É… — Andressa teve que admitir. — Mas eles chupam bem pouquinho sangue, em geral, do gado.

    — Tipo um mosquitão gigante? Eles existem só para irritar a gente e trazer doenças! — Helena estava irredutível.

    — Só as fêmeas de mosquito chupam sangue. O macho ajuda a polinizar as plantas, decompõe matéria orgânica e serve de alimento para sapos, pássaros e lagartixas.

    — Adoro lagartixa… — Helena finalmente concordou com alguma coisa. — E vocês duas, que sabem tudo: qual a função do saruê?

    — Eles comem escorpião, isso é muito importante. Se tem uma família deles por aqui, não temos o que temer. Também ajudam na decomposição de animais mortos. São considerados necrófagos — comem coisas mortas.

    De madrugada, não era hora para esse tipo de discussão. A avó queria que as meninas se acalmassem e voltassem a dormir depois da confusão.

    — Agora não é hora de aula de Biologia. Amanhã a gente explica pra Helena a função de todos os animais mal vistos. Que tal?

    — Temos que explicar mesmo, senão ela só fica passando vergonha! — disse Rafael, que também acordara com a bagunça.


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  • Capítulo 6﹘Boitatá

    — Certa vez, o sol ficou por muito tempo sem aparecer. A noite se prolongou, muito escura, sem estrelas, sem vento e sem barulho. Nem um pio. Nem o farfalhar de folhas. Tudo em silêncio. Não se ouviam nem os bichos, nem nada. O tempo ficou suspenso — começou Carolina, a contadora oficial da turma.

    A menina caçula, Helena, não gostava muito de escuro e, aos poucos, foi se aproximando de sua prima mais velha, Andressa. Não podia confessar que já estava com medo — não tão rápido. Afinal, fora ela mesma quem pediu e convenceu o grupo a ouvir aquela história, e a única condição que Carolina impôs foi que apagassem as lanternas, para entrar no clima da escuridão.

    Naquele feriado, tinham transformado o quarto das meninas numa tenda digna de “As Mil e Uma Noites”. Encostaram as camas na parede, forraram o chão com colchonetes, mantas e travesseiros, e cobriram tudo com lençóis.

    Na primeira noite, Carolina contou sobre a esperteza de Sherazade, que, com suas histórias, escapou da sentença de morte e enrolou o rei por mil e uma noites, até que ele se apaixonasse e revogasse a lei que a ameaçava.
    Na segunda noite, falou sobre Aladim e Ali Babá e os quarenta ladrões.
    Na terceira noite, ia narrar as aventuras de Simbad, o Marujo, e a história do Cavalo de Ébano, mas Helena se revoltou.

    — Não quero ouvir todas as mil histórias de uma vez! — protestou, sentando-se ao lado das primas. — Hoje quero uma história bem diferente… uma de encantamento!

    Andressa franziu a testa.
    — Como assim? Mais encantamento que as de As Mil e Uma Noites? São cheias de magia, principalmente as que têm gênios, como a do Aladim.

    — Simbad! Simbad! Simbad! — interrompeu Rafael, ansioso para ouvir as aventuras do marujo pelos mares desconhecidos.

    — Quero uma com encantamento da natureza! — insistiu Helena, batendo o pé. Para sua surpresa, Carolina concordou.

    — Tem razão! Não vamos gastar todas as histórias de uma vez. Tenho uma perfeita para hoje… mas só se vocês aceitarem desligar a lanterna — pediu a contadora, enquanto lá fora chovia forte, numa noite sem estrelas. — Quero que fique bem escuro!

    Estavam assim quando Helena segurou o braço de Andressa e Carolina prosseguiu:

    — Parecia que o dia não ia voltar nunca mais. As pessoas estavam com fome e frio porque não conseguiam fazer nada no meio da escuridão — nem caçar, nem coletar alimentos.
    Para piorar, em vez de chegar o novo dia, veio uma chuva persistente que não parava mais. Ela inundou tudo, e muitos animais acabaram morrendo.

    — Não sei se estou gostando dessa história… A gente podia voltar pra do Simbad… — reclamou Helena.

    Os outros, porém, pediram silêncio. Agora estavam curiosos.

    — Deixa ela continuar! — disse Rafael.

    Carolina retomou:
    — A chuva, além de provocar os estragos da inundação, infiltrou-se no fundo de uma gruta subterrânea, até alcançar e acordar uma cobra que dormia havia muito, muito tempo. Quando despertou, já estava faminta. Como era o único animal acostumado a enxergar na escuridão, aproveitou-se disso para caçar sem dificuldade. Foi devorando tudo o que encontrava, até ficar satisfeita. Depois, decidiu comer apenas a parte que mais lhe apetecia: os olhos dos bichos. Adorava as pupilas brilhantes.

    — Bleah! — reclamou Rafael, imaginando o gosto.

    — O nome dessa cobra era boiguaçu — continuou Carolina.

    — É em tupi, não é? — perguntou Andressa, lembrando-se de já ter ouvido a palavra.

    — Isso. Quer dizer “cobra grande”. Mboi é cobra, e guassu é grande — confirmou Carolina. — É do nosso folclore, como a mula sem cabeça.

    — Não é melhor acender a luz? —Pediu Helena. — Tá meio assustador…

    — Por quê? Tá com medinho que a boiguaçu vai te pegar? — provocou Rafael, cutucando a prima.

    — Alguns dizem que os olhos que ela comia brilhavam porque guardavam a luz do último dia em que os animais viram o sol. Eles brilhavam por dentro de seu corpo e, com o tempo, ela foi ficando transparente.

    — Nossa! — exclamou Andressa.

    — Mas essa mania de só comer olhos enfraqueceu a cobra. Ela deixou de se alimentar de coisas mais substanciosas e passou a comer apenas algo frugal, que não enchia a barriga. Foi ficando cada vez mais fraca e com a pele mais transparente… até se transformar no Boitatá: uma bola de fogo, um clarão vivo. Mboi é cobra e tatá é fogo.

    — Eu sei! Boitatá é aquele que protege as matas contra incêndios! — lembrou Andressa.

    Carolina continuou:
    — A cobra de fogo morre e reaparece nas matas como uma serpente de couro transparente e olhos como dois faróis. Quem encontra esse ser fantástico pode ficar cego, morrer ou até enlouquecer.

    — Principalmente se maltratar a natureza! Completou Helena.


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  • Capítulo 5﹘Nó de Marinheiro

    — Por que esse nó de marinheiro é diferente? — perguntou Rafael.

    — Se você fizer um nó cego, ele fica firme, mas não consegue desfazer. Se fizer um nó muito simples, ele pode se soltar na hora errada. Com o nó de marinheiro, você tem controle: ele fica firme e também é fácil de soltar quando precisar.

    Leonardo, que tinha sido escoteiro por alguns anos, explicava enquanto ajudava os mais novos a montar um forte de tendas, redes e papelão no jardim.

    — Quais você vai ensinar a gente a fazer hoje? — perguntou Andressa.

    — Vou ensinar dois: o nó em oito e o lais de guia — disse o adolescente, pegando uma das cordas da montagem. — O primeiro tem o formato do número oito. Embora seja muito firme, é fácil de desfazer se precisar soltá-lo rapidamente. Ele consegue suportar bastante peso.

    Leonardo começou a mostrar, com duas pontas na mão.

    — Estamos prontos, pode ir — anunciou Rafael.

    — Estique a corda e pegue uma das pontas. Passe por cima da parte que está esticada, formando um pequeno círculo. Agora, pegue a ponta e passe por dentro desse círculo.

    — Vai devagar! Quando a gente erra a ordem, não funciona — reclamou Helena.

    Andressa correu para ajudar.

    — Agora, o nó lais de guia — continuou Leonardo. — Este é mais complicado, pois é feito em várias etapas. Mas depois que pega o jeito, é difícil esquecer. Coloque a corda em volta do que você está amarrando ou no chão. No meio da corda, faça uma dobra para formar um pequeno círculo. Pegue a ponta e passe por dentro do círculo pela parte de baixo. Agora, a ponta precisa passar em torno da parte reta da corda. Pra terminar, é só pegar a ponta e voltar para dentro do círculo.

    — Impossível! — gritou a caçula.

    Carolina correu para ajudar Helena, que, de tanta ansiedade, estava prestes a atirar a corda longe.

    — Vamos respirar fundo. Paciência! Prestando atenção no passo a passo, você consegue — disse a prima.

    — Huff! Olha só quem está falando em ter paciência — reclamou Helena, sabendo que Carolina não era muito melhor do que ela.

    Rafael começou a rir, concordando. Entre os primos, o único tranquilo era o próprio Leonardo, que normalmente não perdia tempo cuidando dos menores.

    — Mas eu estou fazendo direitinho e com calma hoje… — reclamou Carolina. — Acho que o problema…

    — Gente, calma! Vamos nos concentrar em construir nosso superforte, em vez de ficar brigando uns com os outros — chamou Andressa.

    Leonardo lembrou de quando aprendeu a fazer o lais de guia, ainda pequeno, nos escoteiros. Os monitores contavam uma historinha, e ele achou que isso poderia ajudar.

    — Pega a corda e finge que a ponta dela é uma árvore. Faz um laço — o laço é o lago na frente da árvore. A outra ponta é a cobrinha, que pula no riozinho, dá a volta na árvore e pula de volta no riozinho. Aí, ao mesmo tempo, puxa a árvore pra cima e a cobrinha pra baixo. Quando terminar de esticar, um pra cada lado, está pronto.


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  • Capítulo 4 – Bateria

    Se tinha alguém bom em fazer campanha de aniversário, era o Leonardo, irmão mais velho da Helena. Seus planos começavam com muita antecedência — talvez dois meses ou mais —, quando ele começava a cercar principalmente os pais, mas também tios e avós. Seu objetivo era vencer pelo cansaço.

    Talvez já estivesse colhendo frutos para este ano, porque, naquela manhã de sábado, Rafael e Helena acompanhavam o pai em uma loja de instrumentos usados. Ainda confuso por não conhecer bem o assunto, o pai procurava a ajuda de um vendedor, enquanto Rafael disparou:

    — Olha só essa daqui, que massa! — disse, correndo para uma bateria completíssima, cheia de acessórios e de uma marca famosa chamada Pearl. O menino decidiu que só podia ser aquela. Logo se sentou no banquinho, pegou as baquetas e começou a experimentar.

    — Seu filho tem muito bom gosto. Essa é uma das nossas marcas premium, junto da Tama e da Yamaha — elogiou o vendedor.

    — Não é filho dele. É sobrinho — corrigiu Helena, abraçando o pai, que quase caiu para trás ao ver o preço. Não esperava por aqueles valores de forma alguma. Afinal, tratava-se de um equipamento de segunda mão, mas o preço era quase o de um carro simples. Ainda sem fôlego, olhou para o vendedor como quem implora por ajuda. Lógico que não queria — nem podia — gastar tudo aquilo. O vendedor entendeu e foi mostrar opções mais acessíveis.

    — Que tal esta daqui? Não é de marca famosa, mas está com um preço muito bom. Tem tudo o que ele precisa para começar — sugeriu o vendedor.

    — Papi, qualquer uma que você escolher, ele vai amar. Todas são muito melhores do que a eletrônica que ele tem hoje — disse Helena.

    — E o que vocês vão fazer com a antiga? Pensaram em dar para alguém? — perguntou Rafael, já interessado.

    — Calma, gente, ainda estamos na fase de pesquisa. Nem sabemos direito no que isso vai dar — ponderou o pai.

    — Esta daqui, além do bumbo e dos dois tons, vem com pedal de bumbo, baquetas e dois pratos: o de condução e o de ataque. Pelo preço, os pratos estão vindo quase de graça — explicou o vendedor.

    O pai abriu um sorriso, porque, desta vez, o preço era viável. Podia até dizer que estava bom. Rafael, empolgado, esqueceu completamente da primeira bateria e começou a testar a segunda. Mesmo todo descoordenado, decidiu que essa estava até melhor do que a anterior.

    — E tem alguma outra só um pouquinho mais barata? O Leo ainda vai começar as aulas — perguntou o pai.

    — Podemos começar sem os pratos… Depois, vai completando o kit — sugeriu o vendedor.

    — Ah, não! Sem os pratos fica meio sem graça — defendeu Helena.

    — Posso ficar com a bateria eletrônica, se o Leonardo não for mais usar? — pediu Rafael.

    — Ah, Rafa, para de ficar pedindo coisas. O Leo ainda pode escolher passar pra mim, sua querida irmã caçula — sugeriu Helena, com um sorrisinho malandro.

    O pai apenas coçou a cabeça. Tinha realmente se enrolado dessa vez. Agora, os três queriam um kit de bateria.


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  • Capítulo 17﹘Torrão de Açúcar

    — Olha o que eu ganhei! — anunciou Carolina, trazendo três potinhos: um de tampa amarela, um de tampa azul e um de tampa vermelha.
    — O que é? — perguntou Andressa, sua prima.
    — Corante.
    — Corante pra quê? — a mais velha ficou interessada.
    — Pensei que a gente podia usar pra fazer torrão de açúcar colorido. Vamos levar para a Bambi.

    Andressa aprovou a ideia.

    Ela estava fazendo aula de equitação junto com o irmão. As primas sabiam que aquele não seria o esporte de Andressa. Bambi era uma égua muito experiente, que parecia se divertir em derrubar a menina da montaria sem machucá-la.

    Tudo começou quando Rafael virou um sucesso. Na hípica — que nem ficava tão longe da casa deles —, perceberam que ele tinha potencial para ser um competidor olímpico. Foi convidado a treinar com os instrutores e nem precisava pagar por isso, tamanho tinha sido seu desempenho. A determinação do pai em torná-los atletas finalmente dava resultado, pelo menos com o caçula.

    Quando ouvia muitos dizerem que o irmão competiria até nas Olimpíadas, Andressa não conseguia segurar a risada. Rafa fazia muitas coisas bem e adorava experimentar atividades diferentes, mas ficar preso a um único esporte, cheio de horários e responsabilidades, não era para ele. Isso era um segredo entre os dois.

    Mesmo tomando bronca dos instrutores para ser mais enérgica, a menina preferia ser amiga da égua, em vez de impor adestramento. Continuava a frequentar as aulas apenas para exercitar seu lado de futura veterinária. Aproveitava as aulas gratuitas que ganhou como incentivo para acompanhar o irmão nos treinos. Apesar de ter rendimento bem inferior ao dele, adorava o espaço ao ar livre e cuidar dos lindos cavalos, ajudando a escová-los, levando feno e acariciando seu pelo. Aprendia a cavalgar do seu jeito, no seu ritmo, sem prometer nada a ninguém.

    — O papai só me deixa levar cenoura — lembrou.
    — Mas por quê? Cavalos adoram torrão de açúcar e podem comer de vez em quando. Eles gastam muita energia, sabia? — explicou Carolina.
    — Meu pai é muito preocupado com essas coisas de saúde, mas acho que só dessa vez ele vai deixar. A gente pede pra vó falar com ele — disse Andressa, já se animando a preparar os cubinhos.

    Elas separaram forminhas menores que as de gelo comum, pegaram um pote de açúcar e um pouco de água. Fazer era fácil e divertido. Optaram por encher duas formas: uma para a Bambi e outra para deixar de presente no chá da tarde na casa da avó.

    Agora só precisavam diluir o corante alimentício na água, molhar um pouco o açúcar, socá-lo bem apertado nas forminhas e esperar secar. Assim que soltassem da forma, teriam várias pedrinhas coloridas.

    — Acho melhor deixar os torrões da Bambi na geladeira até segunda-feira, né? — sugeriu Andressa, animada com o resultado.
    — Boa — concordou Carolina, acenando com a cabeça. — E agora vamos pedir pra vovó preparar um lanche e um bolo, daí a gente chama o Rafa e a Helena para o nosso chá da tarde super elegante.


    Receita de Torrão de Açúcar

    Tempo de preparo: 15 minutos

    Você vai precisar de:

    • 1 xícara de açúcar
    • 1 colher de sopa de água
    • Algumas gotas de corante comestível
    • Algumas gotas de essência (baunilha, hortelã ou o que tiver em casa)
    • Forminhas de bombom

    Modo de fazer:

    1. Misture o açúcar com a água até formar uma farofa úmida.
    2. Acrescente o corante e a essência. Mexa bem.
    3. Pegue porções da mistura e aperte nas forminhas.
    4. Desenforme com cuidado e deixe secar ao ar livre.

    Pronto! Ficam duros como pedra, mas derretem rapidinho na boca.


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