Vale dos Pinheiros

Um universo expandido do livro — com glossário, curiosidades e conteúdos exclusivos para quem quer ir além.


F. A. Rovere

  • Capítulo 16﹘Aula de capoeira

    Logo na recepção, Rafael encontrou algo que lhe interessava: uma tabelinha mostrando a evolução das cores das cordas, desde o iniciante até o mestre.

    — Olha, eles usam as cores da bandeira do Brasil — apontou ele, chamando a atenção da prima.
    — E o mestre usa branco, em vez de preto, como nas artes marciais orientais — completou Helena.

    Embora essa ordem de cores pudesse variar de academia para academia, ali estavam sinais de que aprenderiam uma verdadeira arte marcial brasileira/africana. No folheto, apareciam os 11 estágios:

    1. Aluno iniciante: verde
    2. Amarelo
    3. Azul
    4. Verde-amarelo
    5. Verde-azul
    6. Aluno instrutor: amarelo-azul
    7. Aluno formado: verde-amarelo-azul
    8. Monitor: branco-verde
    9. Professor: branco-amarelo
    10. Contra-mestre: branco-azul
    11. Mestre: cordão branco

    Rafael foi direto para a última linha, deixando claro que seu objetivo era se tornar mestre em capoeira. Helena entendeu que aprenderia mais sobre a cultura dos antepassados de sua mãe e de sua tia. Já a mãe de Rafael ficou orgulhosa, mas também um tanto apreensiva ao apresentar um esporte diferente para o filho, que, por influência do pai, havia se tornado muito competitivo.

    A moça havia recebido excelentes referências sobre aquele grupo, que seguia a Capoeira Regional do Mestre Bimba. Estava animada com a ideia de eles experimentarem um esporte mais lúdico e gingado. Afinal, a capoeira é uma filosofia, uma arte marcial que combina dança, música e luta, utilizando força, equilíbrio, ginga e coordenação motora. Seus movimentos — intensos, com chutes e esquivas — incentivam a consciência corporal, pois envolvem todo o corpo. Sua prática desenvolve a coordenação motora das crianças, auxiliando também em outros esportes e atividades físicas. O principal objetivo não é agredir o adversário, mas saber como se defender.

    Sua prática desenvolve a coordenação motora das crianças, auxiliando na prática de outros esportes e atividades físicas.
    Seu principal objetivo não é o de agredir o adversário, mas sim saber como se defender.

    A mãe esperava que ali seu filho não fosse tão cobrado por resultados, e que apenas aproveitasse seu corpo em movimento.

    Depois de serem apresentados aos instrutores, monitores e mestres, ela chamou o filho e a sobrinha. Os dois experimentaram os uniformes — abadá e camiseta — e Helena foi a primeira a entrar na sala propriamente dita, onde as crianças já se preparavam para a aula. Ficou encantada com a música e o som do berimbau, caxixi, atabaque, pandeiro e agogô. Tudo aquilo chamava à dança e ao balanço. Olhando os professores, já se imaginava voando, dando estrelas, saltos e acrobacias. Mas nada acontecia de forma imediata: o treinamento obedecia a uma sequência para que todos acompanhassem.

    — Obrigada, tia! Sei que vou adorar tudo por aqui — disse Helena, pulando no pescoço da tia e dando-lhe um beijo na bochecha. — Depois vou trazer minha mãe. Quero que ela pratique com os adultos.

    A mãe não teve tempo de um último abraço de despedida. Rafael já havia entrado no meio da roda e passava vergonha por acreditar que poderia adivinhar todos os movimentos sem nem ter aprendido nada ainda.

    — É isso… — suspirou ela e, virando-se para os professores, completou: — Esse é meu filhinho querido. Boa sorte com ele.


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  • Capítulo 18﹘Biblioteca de Alexandria

    Deitada no colo da mãe, Andressa se espichava, ocupando a maior parte do sofá da sala, como se afirmasse que aquele dia era especialmente seu e que tinha o direito de ocupar todos os espaços. Como a mãe estava sempre viajando a trabalho, fazendo pesquisas em antropologia, era uma data especial quando todos podiam se reunir e ouvir suas histórias fantásticas pelo mundo.

    A família a ouvia com atenção, enquanto Helena e Rafael dividiam um almofadão no tapete, jogando algum joguinho eletrônico no celular de alguém.

    — E quem colocou fogo na Biblioteca de Alexandria? — perguntou Carolina, com os olhos vidrados na tia, que apenas suspirou e riu.
    — Aparentemente, ninguém… Quer dizer, não do jeito que contam.
    — O que os historiadores dizem, mamy? — Andressa deu a deixa para a explicação mais provável.
    — É triste confirmar isso, mas as pesquisas recentes indicam que ela foi extinta pelo fogo silencioso, conhecido como “fogo lento”, quando materiais como o papiro se deterioram pelas condições climáticas. É um jeito poético de falar sobre a decadência desse material. Alexandria fica no Egito, próximo ao Mar Mediterrâneo, numa região úmida, e foi apenas a falta de cuidado e manutenção que causou a perda da maior parte dos seus tesouros.
    — Construíram uma nova, a Bibliotheca Alexandrina — pontuou a avó, que acompanhava todas as notícias do mundo. — Está funcionando e ativa, mas jamais voltará a ser como foi um dia.
    — Sim, fui até lá, tive a chance de conhecer — confirmou a mãe de Rafael.

    Carolina suspirou:
    — Tia, queria conhecer esse lugar. Mas não o de hoje. Queria poder viajar no tempo, ver os papiros enrolados nas prateleiras, conhecer os filósofos que estudaram lá.
    — Filosofia é muito chata. Não sai do lugar, sempre rodando em círculos — comentou Rafael, esmagando a tela do celular para acertar os alvos do jogo.
    — Nisso você tem razão, Lina. Também adoraria.

    A mãe continuou:
    — A dinastia ptolomaica teve 15 reis e uma rainha, Cleópatra, liderando o Egito por mais de 300 anos antes de Cristo. Durante esse período, o país viveu grande progresso, com um porto importantíssimo e uma marinha ágil e poderosa. No auge da fama, por volta de 200 a.C., a biblioteca recebeu o patrocínio dos governantes para se tornar referência da cultura helenística. Os mais entusiasmados dizem que chegaram a existir 700 mil obras em papiro; os mais realistas acreditam em 40 mil.

    Enquanto explicava, Andressa quase adormecia, sentindo os dedos da mãe acariciando seus cachos. Helena, que também adorava ouvir histórias, deixou o joguinho de lado e se sentou para prestar atenção.

    — E quais filósofos famosos trabalharam lá? — perguntou Carolina.
    — Deixa eu conferir no celular… Foram muitos — disse a mãe, colocando os óculos e mexendo no aparelho. — Teve Aristarco, o primeiro a propor que a Terra girava em torno do Sol, muito à frente de seu tempo.
    — Incrível! — suspirou Carolina.
    — Teve também Euclides, considerado o pai da Geometria.
    — Acho que no próximo ano vamos estudar alguma coisa de Geometria na escola — disse Andressa.
    — Acho que ainda não, querida — contestou a avó.
    — Teve o Hiparco, inventor do astrolábio.
    — É usado para navegação, né? — perguntou Rafael. — Simbad, o marujo, usava um! — afirmou com convicção.
    — Será? As aventuras dele são tão mágicas… — duvidou Carolina.
    — Certeza absoluta! — confirmou Rafael. — Os árabes sempre foram ótimos em navegação.

    A mãe prosseguiu:
    — Teve também médicos, cartógrafos, poetas, matemáticos… O sonho era unir todo o conhecimento do mundo sob o mesmo teto. — Deu mais uma olhada no celular. — Ah, e aqui está outro muito famoso: Eratóstenes.
    — Parece nome de biscoito — resmungou Rafael, levantando-se em direção à cozinha.
    — Ele era astrônomo, historiador, geógrafo, filósofo, poeta, crítico de teatro e o bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria. Usando apenas medidas das sombras provocadas por varetas, calculou a circunferência da Terra com precisão impressionante. E o melhor: entendeu que o planeta não era plano, mas tinha curvatura — disse a mãe, rindo.
    — Nossa, esse daí é bom mesmo! — disse Helena, levantando-se empolgada. — E há quanto tempo eles já sabiam disso?
    — Há mais de 2.200 anos — respondeu o pai. — Todos esses são heróis para os astrônomos!


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  • Capítulo 10﹘A Princesa e a Ervilha

    Entrou acelerada pela sala, quase tropeçando no tapete. Seus longos cílios piscavam rápido enquanto ela carregava um livro enorme. A avó, percebendo a urgência no olhar da neta, colocou o celular de lado.

    — Vó, achei esse livrão com várias histórias de contos de fada e fiquei com uma dúvida. — disse Helena, colocando o livro no sofá, ao lado da avó, e abrindo na página marcada. Na ilustração, via-se uma princesa dormindo no alto de uma pilha de vinte colchões.

    — Pode falar, meu bem. — respondeu a avó com carinho. Normalmente, meninas da idade dela já não liam contos de fada, mas Helena era diferente.

    — No final, a princesa da ervilha é mocinha ou vilã? — disparou a menina.

    A pergunta pegou a avó de surpresa. Logo essa história, onde não havia vilões nem mocinhos… Ela parou para pensar.

    — Acho que nenhum dos dois… — começou, hesitante. As crianças de hoje eram tão espertas que, às vezes, deixavam os adultos sem resposta.

    Helena continuou:

    — A Carolina disse que essa princesa é folgada. Reclamou de sete ervilhinhas escondidas a vinte colchões de altura, o que é impossível de sentir. Outras princesas, como a Branca de Neve e a Cinderela, reclamaram com razão: uma porque a madrasta queria matá-la, e a outra porque era tratada como escrava.

    A avó quase caiu para trás. Era muita informação de uma vez só, acompanhada das observações afiadas — e provocativas — de Carolina.

    — Ah, então é isso? Vocês estavam lendo juntas essas histórias? Está bem. Me diz você: o que acha dessa princesa?

    — Gosto desse desenho. — apontou Helena. — Dá uma sensação boa vê-la tão protegida no topo da pilha de colchões. Foi acolhida depois de se perder numa tempestade à noite.

    — Talvez seja sobre isso, sobre acolhimento… — refletiu a avó. — Mas também acho que ela foi mal-agradecida. Depois de tanto empenho de quem a recebeu, reclamou que passou mal à noite. Nisso, a Carolina está certa: não houve motivo para tanta queixa.

    — Verdade… — concordou Helena.

    A avó sorriu.

    — Você acha que essa atitude enjoadinha dela foi recompensada? No final, ela se casou com o príncipe, com a aprovação da rainha e tudo mais.

    — Vai saber… Pode ser que o príncipe fosse mais chato ainda. — disse Helena, enrolando um cacho de cabelo no dedo.

    A avó conteve o riso e não resistiu a acariciar os cabelos pretos e encaracolados da neta. Helena estava cada vez mais esperta e cheia de respostas.

    — Pensando bem, acho que a Carolina está certa. Nunca parei para refletir sobre essa historinha. Em geral, dizem que o autor, Hans Christian Andersen — o mesmo de A Pequena Sereia —, fazia críticas divertidas às normas e expectativas da sociedade aristocrática, ou seja, da nobreza.

    — Ah, tá. Carolina não gosta dessas frescuras de nobreza. — disse Helena, concordando.

    — Por outro lado — continuou a avó —, há uma questão interessante que você pode comentar com sua prima. Eles descobriram a verdadeira linhagem da moça não por aparências externas, documentos ou registros, mas pela forma como ela foi educada: sua sensibilidade e atenção aos mínimos detalhes, às sutilezas.

    — Ela não vai engolir essa… — retrucou Helena, saindo em disparada para o jardim com o livro no colo. Afinal, a avó não tinha conseguido argumentos melhores que os dela para confrontar Carolina.


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  • Capítulo 13﹘Nébula

    — Ela vai se chamar Nébula. Helena disse sem nenhuma dúvida.
    — Você acabou de dar esse mesmo nome pra sua outra cachorrinha. Não sabia que você era tão fã dos Guardiães da Galáxia. Leonardo coçou a cabeça, lembrando de um personagem da Marvel.
    — É Nébula por causa das nebulosas. Ela disse baixinho.
    — Ahn! Ele suspirou. O adolescente entendeu que ela queria prestigiar seu pai, professor de astronomia, de alguma forma. Quando seus pais se separaram, Leonardo, que é quatro anos mais velho do que a caçula, entendeu. A menina nem tanto, achava que seus pais formavam uma dupla imbatível e perfeita, e nunca deixava de fazer campanha pra os dois voltarem.

    — Não estou entendendo. A cachorrinha que sua mãe acabou de adotar também não se chama Nébula? Como vão distinguir uma da outra? O pai estranhou. Sim, ela tinha acabado de adotar uma vira-latinha, caramelo, toda espoleta, mas que ficaria na casa da mãe. O pai não quis ficar para trás e os levou para escolher uma segunda cachorrinha, desta vez, com pedigree, um buldogue francês também caramelo. Talvez pelo sentimento de culpa, de não conseguirem realizar o seu maior desejo de continuarem como um casal, os pais começaram a realizar seus mínimos desejos e até competiam entre si tentando agradá-la.

    — Ela está cada vez mais esquisita. Cheia de manias. Leonardo, que os acompanhava na jornada de escolher o novo cachorrinho, reclamou. O garoto parecia ser o único a entender que ela estava ficando mimada demais, cheia de vontades esquisitas porque ninguém tinha coragem de dizer não para ela.

    — Tinha entendido que essa ia ficar na sua casa. A outra fica na minha. Quando a gente voltar a morar na mesma casa, eu mudo o nome de uma das duas. Ela explicou, como se fizesse algum sentido.

    — Pai, fala pra minha irmã que essas esquisitices dela estão ficando cada vez mais ridículas. Leonardo balançou a cabeça.

    — ‘Cê não vai dizer que sou ridícula, né? Você não entende. Ela devolveu certeira.

    — Não entendo mesmo! Cada coisa que você inventa. Está sempre pedindo coisas! Você já tem sua primeira cachorrinha. A Nébula original. Leonardo disse.

    — Exatamente. Essa será a minha segunda. E você só não entende porque não presta atenção em nada do que o papai explica. A irmã cruzou os braços.

    — Pronto. Estou pronto pra ouvir. Explica então. O irmão mais velho desafiou.

    — Nébula é um nome lindo, Nebula em inglês. O berçário das estrelas. O pai tentou ajudar Leonardo, que realmente não se interessava em nada por esse assunto.

    — Perfeito! É por isso que preciso de duas Nébulas. Ela insistiu enquanto seu irmão só encolheu os ombros.

    — Eu sei que tem vários formatos de nebulosas no Universo. São nuvens de poeira e gás que formam os desenhos mais bonitos das fotos de astronomia. O menino sabia das coisas quando lhe interessava, e frisou a palavra nebulosa, na versão mais conhecida em português.

    — Isso mesmo! Você explicou muito bem. O pai ficou orgulhoso.

    — E você sabe como as nebulosas são formadas? A menina desafiou o irmão, com a mais absoluta certeza de que ele não saberia a resposta.

    — Nossa, me surpreendeu! Não achei que você tivesse decorado tantos nomes. O pai ficou orgulhoso e a menina ficou mordida. Era ela quem entendia desse assunto e ponto.

    — E de onde vêm esse gás e poeira? Ela deu uma pausa para criar suspense. —Vêm das supernovas! Das estrelas que acabaram de morrer explodidas. O pai riu. O jeito da Helena explicar as coisas era engraçado, mas, por mais incrível que pareça, ela tinha acertado. Lógico que essa não era uma resposta única, porque a formação do universo é bem complexa, mas para uma menina de dez anos, estava muito bom. Aquilo que para o professor de astronomia era um sinal de um Universo que se transforma e recicla. Para a menina, eram dois tipos de nebulosas, a do começo e a do final da vida de uma estrela.


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  • Capítulo 27﹘Xadrez

    Os primos queriam viajar juntos. Prometeram se comportar.

    Andressa, a mais velha, ia sentada no banco da frente porque já estava quase com onze anos. Quem dirigia era seu pai.

    Rafael, seu irmão mais novo, ficou entre as outras duas primas, no banco de trás. Helena olhava a paisagem e Carolina ia lendo.

    — Não faz bem ficar lendo dentro do carro — disse o pai, do banco do motorista.

    — Não estou lendo, estou vendo como fazer uma abertura no jogo de xadrez — respondeu Carolina.

    Era mais ou menos verdade, porque a abertura vinha descrita em desenhos e ela quase não precisava ler. Mas ainda lia uns trechos. Há algum tempo, tinha decidido aprender a jogar e já estava familiarizada com as peças e seus movimentos. Até participava de um clube de xadrez infantil online.

    — A Helena trouxe o jogo portátil dela. Aquele das pecinhas que se encaixam pra não cair do tabuleiro — lembrou Rafael, entediado com a viagem.

    — Também não faz bem ficar jogando no carro — repetiu o pai.

    — Mas esse tabuleiro foi feito exatamente pra isso! Tem base magnética! — protestou Helena, remexendo na mochila.

    Os dois mais novos tinham prática em montar as peças, porque jogavam sempre um contra o outro. Andressa olhou para trás, curiosa, para ver melhor o que estava acontecendo.

    — Posso jogar contra a Carolina? —Pediu Rafael.

    Helena deixou os dois começarem e ficou apenas observando. Rafael começou com as peças brancas, jogando do seu jeito, sem pensar muito na sequência das jogadas.

    — Vou começar com a abertura dos quatro cavalos! — anunciou Carolina, com os olhos brilhando, entusiasmada por testar a abertura que tinha estudado no seu livrinho.

    — Não vale! — reclamou Helena.

    — Como assim? Todo mundo aprende a jogar assim! — explicou Carolina, revirando os olhos.

    — Não! Você está colando do livro! Tem que jogar o que vier na cabeça, como eu e o Rafa fazemos! — disse Helena.

    — Se vocês não querem aprender o jeito certo, tudo bem. Mas por que eu tenho que aprender do jeito errado? — Carolina ficou chateada.

    — Isso mesmo! Vocês dois deviam aproveitar e aprender a jogar direito! — Apoiou Andressa.

    — Não! Não queremos estudar, queremos jogar! — finalizou Rafael, levando o tabuleiro para o lado de Helena.

    Andressa só balançou a cabeça.

    — Na casa da vovó, eu jogo com você — prometeu a prima mais velha.

    Rainha

    Bispo

    Peão

    Cavalo

    Rei


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  • Capítulo 3﹘Código Secreto

    Desta vez, os quatro primos estavam reagindo a uma provocação de Leonardo, que apostou conseguir quebrar qualquer código que eles pudessem inventar.

    O primeiro time, com Rafael e Helena, precisava passar uma mensagem para o segundo time, com Carolina e Andressa. Leonardo jogava sozinho, porque, segundo ele, era o mais esperto dos primos por ser o mais velho — e conseguiria interceptar qualquer mensagem. Quem ganhasse levaria o prêmio.

    No jardim, os primos mais novos conspiravam:

    — Código Morse ele sabe — e treinou muito com os escoteiros. Ele tem até o livrinho com os pontos e linhas — choramingou Helena.

    — Além de não ser nada prático — reclamou Rafael, com preguiça de alinhar tantas linhas e pontinhos. — Tem aquele em que o A vira o D, o B vira o E, e assim por diante…

    — Fácil demais — a menina chacoalhou a cabeça.

    — E se, além do código, a gente usasse tinta invisível? — propôs o menino, ansioso, apressando Helena. — O que você prefere que eu pegue: suco de limão, bicarbonato ou pedaço de vela?

    — Com limão é mais fácil. Não precisa nem de suco de uva pra reagir com o bicarbonato, nem tinta pra passar em cima da parafina — ela estava pensando.

    — É mais fácil de fazer… e também mais fácil de decifrar — Rafael fez bico, achando que ela estava facilitando para o irmão mais velho, Leonardo.

    — Cê acha que eu tô querendo ajudar o Leonardo? Claro que não. Estamos em times opostos — a menina retrucou, brava.

    — Verdade. Ele provocou todos nós. Você não ia deixar barato…

    Helena era muito competitiva, e Rafael reconheceu que ela não facilitaria. Quando o irmão mais velho disse que iria ganhar dos quatro, ela foi a que ficou mais brava.

    — Vamos de bicarbonato. Isso tem na cozinha. E nem sei se tem suco de uva! — ela deu um sorriso de satisfação.

    — Bora! — Rafael estava animado. — Mas… e qual código a gente usa?

    — Lembra aquele com o livro? Aquele é bom. E a Carolina vai saber qual é.

    — Tô lembrando… mas como ela vai saber qual livro é? — Rafael perguntou.

    — Ela não vai saber, mas vai deduzir — porque vamos usar o livro favorito dela — a risada confiante de Helena explicava tudo.

    Além da tinta invisível e do código, ela ia jogar com o fato de que Carolina adorava livros de detetive — mas não ia escolher nenhum deles para decifrar. Ia usar um da sua coleção sobre mitologia grega. Aquele do menino semideus. Seu livro favorito de todos!

    Depois de explicar bem cada detalhe do plano, Rafael concordou. Helena estava cada dia mais esperta. Leonardo jamais interceptaria esse código — muito menos acertaria qual livro! Pra ganhar, só lendo pensamento. Impossível!

    — Você tem que pegar o livro bem escondidinho, pra ele não ver. Depois a gente escreve a mensagem aqui. Cada letra precisa de três números: primeiro é o número da página do livro, o segundo é o número da linha dentro da página, e o terceiro é a ordem da letra na linha. Como se fossem nossas três dimensões: altura, largura e profundidade — relembrou Helena.

    Agora só precisavam achar o livro, escrever a mensagem e depois devolvê-lo à estante, no mesmo lugar de onde tiraram.

    — O Leo não vai ter a menor chance! — Rafael comemorou.

    — Ele vai desistir em cinco minutos! Mas a gente vai levar a melhor… e mostrar quem manda!


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  • Capítulo 2﹘Brigadeiro

    A duende nem tinha o pão-duro — aquela espátula feita pra não sobrar nada na travessa — porque queria que sobrasse um tantinho. Despejava a massa de bolo na assadeira e logo chamava seus assistentes para experimentar o resultado, que lambiam os dedos depois de limpar os batedores e as tigelas.

    — Hummmm! — Rafael já estava com aquele bigode de chocolate, de tanto ajudar Estrelinha nos seus preparos.

    — Só tá faltando fazer brigadeiro agora! — Trim e os outros assistentes trocaram olhares, como se não soubessem o que era.

    — O que é? Nunca ouvi falar! — Estrelinha confessou.

    — Vocês, duendes, prontos pra uma super festa e sem brigadeiro? Não posso deixar isso acontecer. Vou ensinar! — O menino já tinha feito brigadeiro com sua avó muitas vezes.

    — Preciso de leite condensado, manteiga e chocolate em pó — ele disse.

    Trim correu, separando os ingredientes.

    — Só isso? — Estrelinha achou pouca coisa.

    — Também preciso de granulado pra enrolar, forminhas e um micro-ondas. — Assim que o menino falou “micro-ondas”, lembrou que eles não tinham esse tipo de eletrodoméstico ali.

    O olhar de Estrelinha era de espanto. As palavras “micro-ondas”, “forminhas” e “granulado” não estavam em seu vocabulário.

    — Calma, vamos resolver esses problemas. Nunca fiz na panela, porque minha avó não me deixa usar o fogão, mas sei como fazer e posso explicar. Tem que ficar mexendo até desgrudar da panela — disse ele.

    Estrelinha concordou. Essa parte ela sabia fazer.

    — Pode ser esse açúcar coloridinho? Podemos enrolar com isso? — Trim ofereceu açúcar de várias cores lindas.

    — Muito bem! Vai funcionar! Todo mundo vai adorar! — O menino comemorou.

    Seguindo as instruções de Rafael, Estrelinha terminou a massa e, depois de enrolar, Trim e os outros ajudaram a passar os docinhos no açúcar colorido. A equipe da cozinha experimentou — e logo todos viraram fãs.

    — Falei que era uma delícia. Fazemos em todas as festas de aniversário, mas também podemos fazer quando temos vontade — disse ele.

    Como não tinham forminhas, apenas colocaram os brigadeiros numa bandeja, bem pertinho uns dos outros.

    — Pode ser usado como cobertura ou recheio de bolo. Pode trocar o chocolate por coco — daí se chama beijinho. Se trocar por amendoim, vira cajuzinho. E se trocar por gelatina vermelha, chama bicho de pé — Rafael estava empolgado com as possibilidades.

    Mas Estrelinha apontou para o relógio na cozinha. Estavam sem tempo para fazer novas receitas. Precisavam começar a arrumar o salão para receber os convidados.

    — Está na hora, pessoal! Vamos decorar tudo para o nosso brunch! — avisou Trim, organizando a fila da turma prestes a entrar no salão, acender as luzes e abrir todas as cortinas.


    Receita de Brigadeiro de Micro-ondas

    Tempo de preparo: cerca de 1 hora (contando o descanso)
    Você vai precisar de:

    • 1 lata de leite condensado
    • 4 colheres de sopa de chocolate em pó ou achocolatado
    • 1 colher de sopa de manteiga
    • Chocolate granulado (ou granulado colorido)
    • Forminhas de papel

    Modo de fazer:

    1. Em um recipiente que possa ir ao micro-ondas (melhor se for redondo e com a borda alta), misture o leite condensado, o chocolate e a manteiga.
    2. Leve ao micro-ondas por 6 minutos na potência alta (ou use a tecla “brigadeiro”, se tiver). Quando chegar na metade do tempo, abra com cuidado e mexa a mistura.
    3. Quando o tempo acabar, retire e mexa bem até a massa ficar lisa e brilhante.
    4. Espere esfriar. Depois é só enrolar, passar no granulado e colocar nas forminhas.

    Fica docinho, gostoso e perfeito pra dividir com quem você gosta — ou não dividir com ninguém!


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  • Capítulo 1﹘Rios Aéreos

    Tinha tossido a noite toda, feito inalação e até tomado antibiótico para baixar a febre e diminuir a dor de garganta. Foi por isso que Carolina foi proibida de brincar de futebol de sabão, improvisado com uma lona no jardim da avó.

    A menina não se preocupava com nada disso, nem acreditava que ficar seca e quentinha ajudava a combater sua dor de garganta, só estava muito indisposta para se divertir com seus primos. Seguia tranquila, bem instalada na rede da varanda, ao lado de uma caixa de lenço de papel e coberta por uma mantinha leve, apesar do dia quente. Passava o tempo navegando no celular, que sua mãe tinha emprestado.

    Pesquisava um assunto muito interessante: os rios aéreos.
    Olhou para cima. Estariam passando por ali? Na Internet, diziam que eram invisíveis a olho nu. A menina apertava os olhos para enxergar além das nuvens, da luz do sol, do azul do céu.

    As árvores, depois de absorverem água do solo, transpiravam e devolviam essa água como vapor d’água.

    Ela riu, imaginando a árvore transpirando, com calor, usando desodorante, esse tipo de coisa.

    Depois era a vez do vento. Ele organizava aquela massa de ar cheia de vapor d’água para grandes altitudes e a empurrava por quilômetros. Como eles moravam em São Paulo, pensou na distância que precisavam percorrer, uma vez que eles vinham da floresta da Amazônia, no norte do país.

    Em algum momento, eles cansavam de viajar e se condensavam, choviam, irrigando plantações, aumentando a vazão dos rios, espalhando umidade por toda a América do Sul.

    Tão longe, tão distraída ela estava, pensando nisso tudo, quando sentiu um furacão passando de bicicleta e derrubando tudo.

    — Ra Fa El !!! A menina gritou com sua voz fanhosa e rouca.

    Como o menino conseguia aprontar esse tipo de coisa? Tinha vindo correndo com sua bicicleta de uma tal forma que se enganchou na sua rede e derrubou seu refúgio quentinho na lona molhada.

    Disso ela não gostava. Quando seu primo aprontava tanto, mas tanto, que não conseguia ficar sossegada nem por um instante. E hoje tinha sido um desses dias.

    Suas primas correram para salvá-la. Andressa estava furiosa com seu irmão:

    — Rafa! Que ideia foi essa? Ela está proibida de brincar com molhadeira!

    — Vovó vai ficar muito brava! Vamos ajudar ela se secar! — Disse Helena, correndo para abraçar a prima com uma toalha.

    A irritação de Carolina teve outro motivo. Como nenhuma desgraça acontece sozinha, no reboliço de ter a rede virada e escorregar pela lona ensaboada, acabou deixando o celular da sua mãe escapulir de suas mãos e mergulhar num balde cheio de água com sabão.

    — Se o aparelho estragar, a culpa é sua! Ela gritou esganiçada.

    — Nunca!!! — Percebendo a situação complicada, Helena correu para resgatar o aparelho enquanto Andressa voou furiosa para cima do irmão, sem saber o que fazer. — Vamos enxugar todas essas bolhas e deixar secar bem sequinho e ele volta a funcionar!

    — O Rafa faz mais molhadeira que os rios voadores! Disse Carolina, depois de espirrar umas vinte vezes e enxugar o nariz.

    — Rios voadores? — Andressa perguntou — Nunca ouvi falar!

    — Também nunca ouvi falar, mas gostei! Tive umas ideias aqui… Riu Helena, enquanto procurava um lugar seguro para deixar o telefone secando.


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