Mini Histórias

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Mini Histórias

Capítulo 16-Aula de capoeira

Saindo da aula de karatê, Rafael arrastou sua melhor amiga, Camila. A menina de olhos verdes, cabelos longos e loiros presos num rabo de cavalo tinha a mesma idade que ele. Ele queria mostrar um quadro da aula de capoeira na sala vizinha.

Embora a ordem de cores pudesse variar de academia para academia, esses eram sinais de que aprenderiam uma verdadeira arte marcial brasileira/africana. No folheto, apareciam os 11 estágios:

aluno iniciante: verde;
amarelo;
azul;
verde-amarelo;
verde-azul;
aluno instrutor: amarelo-azul;
aluno formado: verde-amarelo-azul;
monitor: branco-verde;
professor: branco-amarelo;
contra-mestre: branco-azul
mestre: cordão branco.

— Olha, eles usam as cores da bandeira do Brasil. O menino chamou sua atenção, mostrando uma tabelinha que indicava a evolução das cores das cordas, de iniciante até se tornar um mestre.


— Então. Camila observou. — Na capoeira é o inverso do karatê. O mestre, o mais avançado de todos, usa corda branca ao invés da faixa preta das artes marciais orientais.


— Vamos fazer? O menino perguntou, apontando a última linha do quadro, mostrando que seu objetivo era se tornar um mestre, também em capoeira.


— Jogar capoeira? Camila quis confirmar.


— É. Ia melhorar nossos saltos. Os olhos dele brilhavam.


— Mas a gente não usa saltos no karatê, só as sequências de golpes. Camila ficou um pouco na dúvida.


— Exatamente. Rafael concluiu, sem explicar.


Energia não faltava a nenhum dos dois. O problema é que Rafael estava com a agenda lotada, praticando outros esportes e o escotismo, e Camila apresentava tanta vocação que seu mestre do karatê queria dedicação total, sonhando em formar uma campeã mundial.


— ‘Cê desistiu de competir? De participar de torneios mundiais? De conhecer o Japão? A menina perguntou, lembrando onde os primeiros torneios mundiais de karatê foram realizados. — Eu quero viajar pelo Brasil e pelo mundo. Você não quer?


— Quero. Mas não sei se tenho o mesmo talento que você. O menino olhou para baixo.


— Claro que tem. Você faltou muito na aula. Precisa se dedicar.

Camila bagunça o cabelo dele. Os dois amigos adoravam movimentar o corpo e eram muito bons e competitivos. Um instigava o outro a se superar.


— Minha mãe já acha que faço esportes demais, que estou muito competitivo. Talvez não me deixe fazer os dois e me force a escolher entre os dois. Rafael se desanimou.


— Minha mãe vai deixar, com certeza. Esporte é saúde! É vida! Deixa eu falar com a sua; tenho certeza de que consigo convencer.


Assim que Graziela, mãe de Rafael, chegou, recebeu dois mini cometas vindo em sua direção. Ela não conseguia acompanhar a velocidade do filho, que estava sempre fazendo novas descobertas e inventando mais esportes. Mas, para surpresa das crianças, ela deixou. Nem precisou ser convencida.


— Tenho as melhores referências sobre o grupo de capoeira desta academia. Disse ela.


Aquela escola seguia a Capoeira Regional do Mestre Bimba. Estava animada com a ideia deles experimentarem outro tipo de esporte, mais lúdico, mais gingado. Afinal, a capoeira é uma filosofia, uma arte marcial que combina dança, música e luta. Que se utiliza da força, do equilíbrio, da ginga e da coordenação motora. Seus movimentos intensos com chutes e esquivas incentivam a consciência corporal porque trabalham com todo o corpo.
Sua prática desenvolve a coordenação motora das crianças, auxiliando na prática de outros esportes e atividades físicas. Seu principal objetivo não é o de agredir o adversário, mas sim o de saber como se defender, como todas as outras artes marciais. Esperava que ali seu filho não fosse tão cobrado por resultados, como seu pai fazia, e apenas aproveitasse seu corpo em movimento.


— Querem fazer a aula experimental? Ela ofereceu aos dois. E, obviamente, que eles se eletrizaram.
Depois de ser apresentada aos instrutores, monitores e mestres, Graziela chamou seu filho e Camila foi junto. Os dois experimentaram os uniformes com abadá e camiseta, e a menina foi a primeira a entrar na sala propriamente dita, onde as crianças já se preparavam para a aula.

Ficou encantada com a música e o som do berimbau, caxixi, atabaque, pandeiro e agogô. Tudo aquilo chamava a atenção para a dança e o balanço. Olhando os professores, já se imaginavam voando, dando estrelas, saltos e as demais acrobacias. Mas nada era assim imediato; o treinamento obedecia a uma determinada sequência para que todos pudessem acompanhar.


— Obrigada, tia! Vamos adorar tudo por aqui. Camila pulou em seu pescoço e deu um beijo em sua bochecha. — Depois vou trazer minha mãe, pra ela me matricular também.
Graziela suspirou. Os dois eram ligados no 220V.


Rafael já tinha entrado no meio da roda e passava vergonha, por acreditar que adivinharia todos os movimentos sem nem ter aprendido nada ainda.


— É isso! Ela suspirou e, depois, virou-se para os professores. — Esse é meu filhinho querido e sua melhor amiga. Boa sorte com eles.