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— Comando Marte Profundo chamando Jipe da Superfície, responda, por favor. Chamou Helena.
— Jipe da Superfície na escuta. Respondeu Rafael.
— Não esqueça de passar pela sala anti-radioatividade ao retornar da sua patrulha. Respondeu Helena.
— Muito bem. Vamos manter sua tripulação protegida de qualquer radiação espacial. Rafael completou.
Andressa, deitada no sofá assistindo a um desenho animado, soltou uma risada. Não conseguia entender como seu irmão tinha paciência para lembrar todos os detalhes chatos que a prima o forçava a decorar. Se ele não brincasse “direito”, eles nem começavam, porque Helena levava suas viagens espaciais muito a sério.
Precisavam de dois tipos de traje espacial quando viajavam em sua nave, um interno e outro externo, para as caminhadas espaciais, ou atividades extra-veiculares. Constantemente passavam por estações de descontaminação, com tecnologia “anti-radioativa”, e coitado dele se esquecesse de colocar ou retirar seu capacete imaginário!
— Pode me dar sua posição exata? O menino perguntou pelo interfone que tinham feito com duas latas e um barbante.
Helena esperava ganhar um walkie-talkie, de verdade, no Natal. Mas, naquele momento, é o que tinham, e até que funcionava bem.
— Estamos na sala de comando subterrâneo, no andar 27.
— Copiado. Já estou dentro do transporte vertical e descendo.
Lá fora, a chuva caía sem parar e Carolina voltava abrindo um pote cheio de pé de moleque que eles tinham feito no dia anterior.
— E aí, pessoal da agência espacial? Querem pé de moleque? Carolina ofereceu para o grupo.
Helena poderia até não aceitar sair debaixo da mesa, onde ficava sua estação marciana subterrânea, mas Rafael não resistia quando se tratava de comida, especialmente se fosse doce. E que delícia eram esses feitos em casa. Não era duro de quebrar, nem mole demais de grudar no dente. Apenas crocante e derretia na boca.
Em dois segundos, o menino tinha abandonado seu posto e estava sentado no tapete, na frente do sofá. A menina também acabou não resistindo e, após soltar seu capacete imaginário, acompanhou o primo.
— Sinto saudade das comidas da Terra, que bom que essa missão trouxe um pouco de pé de moleque espacial pra gente. Disse ela, sem sair do personagem.
Só para provocar, Andressa perguntou sobre seus “trajes espaciais”:
— Por que você está de capacete, se está há vinte e sete andares abaixo da superfície?
— Porque trabalho numa área sujeita à despressurização. Ela respondeu. — O capacete dele, por exemplo, tem muito mais funções do que o meu, porque ele estava no jipe, na superfície planetária. Disse, apontando para o Rafael.
— Entendi. Andressa concordou.
— E se a gente estivesse em órbita, no vácuo, ou caminhando pela superfície de outro planeta, a tecnologia seria completamente diferente. Ela apontou para uma pilha de roupa, que tinham deixado na poltrona/nave. — Primeiro, você veste o macacão refrigerado que controla a temperatura. Disse ela mostrando seu pijama vermelho.
— Depois você entra na vestimenta extraveicular, que regula a pressão em lugares sem atmosfera. Disse Helena, pegando os casacões de inverno da avó. — E, por último, o suporte de vida primário. Desta vez, ela pegou a mochila da escola. — Onde seu oxigênio é armazenado.
— Hoje está chovendo, mas ainda muito quente pra vestir tanta roupa, uma em cima da outra desse jeito. Andressa reclamou.
— Sem todo esse apoio, você vive no máximo, uns 90 segundos, em condições adversas, fora do planeta.
Helena ajeitou sua pilha de roupas, olhando feio para a prima.
— ‘Tá certo. Vou me lembrar disso.