Vale dos Pinheiros

Um universo expandido do livro — com glossário, curiosidades e conteúdos exclusivos para quem quer ir além.


F. A. Rovere

  • capítulo 15﹘Bioluminescência

    Foram andando pela areia da praia, até encontrarem o delta do riozinho. A tarde estava agradável e só Helena tinha ficado para trás.

    Rafael corria pela praia, aquecendo-se para o treino, enquanto Andressa não poderia estar menos interessada. Não é que não gostasse de nadar, ou de nadar no rio, isso ela adorava. O que ela não se interessava era pela competição.

    Seu pai teve a ideia de levá-los para treinar no pequeno rio que desembocava no mar. Isso daria uma vantagem competitiva quando disputassem no torneio do mês seguinte, que seria na raia olímpica. Rafael já contava em ganhar mais uma medalha para enfeitar a estante de troféus.

    O plano era passar a tarde toda, e Rui chegou preparado. Tinha levado cronômetro, apito e uma geladeirinha de isopor com suco e sanduíche.

    — Eu costumava acampar aqui perto, quando ainda era casado com a mãe de vocês. O pai relembrou. Andressa não conseguiu evitar um suspiro. Entre tantas viagens, os irmãos não conseguiam ver a mãe o quanto gostariam. Percebendo o baixo astral da prima, Carolina interrompeu a conversa.

    — Aposto que vamos ver muitos peixes diferentes e caranguejos. Aquele bonitinho, a Maria Farinha, e o outro grande, azul, o Guaianum. Precisava animar a prima falando de animais.

    — É Guaiamum que se fala. Muito bonitinho. Andressa sorriu, acelerando o passo, que até ali estava se arrastando, de má vontade.

    Chegaram no delta e a água do rio estava mais quente que a do mar. Tinha sido uma manhã muito ensolarada. Sentiam a diferença de temperatura. Uma morna e outra fria.

    Apesar de Andressa nadar muito bem, seu pai entendeu que a menina não estava a fim e o treino seguiu apenas com Rafael, sua energia era gigante.

    As meninas entraram na água, boiaram no riozinho, mas logo saíram para explorar os arredores, descobrir caranguejos, encontrar aranhas escondidas nas folhas das bromélias, catalogar quais pássaros e insetos encontravam. Carolina adorava as libélulas, mas o que gostava mesmo era de colecionar conchas quebradas. Enquanto todos procuravam as mais perfeitinhas, ela só escolhia as quebradas, tortas e diferentes, gostava dos formatos únicos e não dos óbvios.

    E assim passaram a tarde, ouviram o apito no treino do Rafael, tomaram lanche, beberam suco, pediram picolé até o pôr do sol.

    Anoiteceu e a lua nova já despontava anêmica e fininha, quando as meninas vibraram ao entrar no mar. Mesmo sob luz fraca, suas ondas pareciam bordadas com uma linha brilhante, fosforescente.

    Desde que sua mãe, bióloga, explicou o que era, Carolina ficou fascinada, precisava mergulhar na barra das ondas para tocar seu brilho. Quanto mais mexiam, mais brilhava a água.

    — Hoje está bonito demais! Carolina gritou. — As bioluminescências.

    Andressa se interessou.

    — Por que brilham tanto assim?

    — Reação química. Em geral, quando a água está mais quente e com muitos nutrientes, os microorganismos como algas e plânctons reagem com o oxigênio. Tem um nome, luci, alguma coisa.

    — Quando vêm as ondas, ou quando a gente se mexe, o brilho aumenta! Andressa comemorou, lembrando que o riozinho morno esquentava a água do mar.

    — Acho que se chama luciferina, depois confirmo na internet. É isso que reage com o oxigênio. Falou Rui.

    — É como nos vagalumes! Andressa suspirou e Carolina comemorou.

  • Capítulo 29﹘Astronautas

    — Comando Marte Profundo chamando Jipe da Superfície, responda, por favor. Chamou Helena.
    — Jipe da Superfície na escuta. Respondeu Rafael.
    — Não esqueça de passar pela sala antirradioatividade ao retornar da sua patrulha. Respondeu Helena.
    — Muito bem. Vamos manter sua tripulação protegida contra qualquer radiação espacial. Rafael completou.
    Andressa, deitada no sofá assistindo a um desenho animado, soltou uma risada. Não conseguia entender como seu irmão tinha paciência para lembrar todos os detalhes chatos que a prima o forçava a decorar. Se ele não brincasse “direito”, eles nem começavam, porque Helena levava suas viagens espaciais muito a sério.
    Precisavam de dois tipos de traje espacial quando viajavam em sua nave, um interno e outro externo, para as caminhadas espaciais, ou atividades extra-veiculares. Constantemente passavam por estações de descontaminação, com tecnologia “anti-radioativa”, e coitado dele se esquecesse de colocar ou retirar seu capacete imaginário!
    — Pode me dar sua posição exata? O menino perguntou pelo interfone que tinham feito com duas latas e um barbante. Helena esperava ganhar um walkie-talkie, de verdade, no Natal. Mas, naquele momento, é o que tinham, e até que funcionava bem.
    — Estamos na sala de comando subterrâneo, no andar 27.
    — Copiado. Já estou dentro do transporte vertical e descendo.
     Lá fora, a chuva caía sem parar e Carolina voltava, abrindo um pote cheio de pé-de-moleque que eles tinham feito no dia anterior.— E aí, pessoal da agência espacial? Querem pé de moleque? Carolina ofereceu para o grupo.
    Helena poderia até não aceitar sair debaixo da mesa, onde ficava sua estação marciana subterrânea, mas Rafael não resistia quando se tratava de comida, especialmente se fosse doce. E que delícia eram esses feitos em casa. Não era duro demais para quebrar, nem mole demais para grudar no dente. Apenas crocante e derretia na boca. 
    Em dois segundos, o menino tinha abandonado seu posto e estava sentado no tapete, na frente do sofá. A menina também acabou não resistindo e, após soltar seu capacete imaginário, acompanhou o primo.
    — Sinto saudade das comidas da Terra, que bom que essa missão trouxe um pouco de pé-de-moleque espacial pra gente. Disse ela, sem sair do personagem.
    Só para provocar, Andressa perguntou sobre seus “trajes espaciais”:
    — Por que você está de capacete, se está a vinte e sete andares abaixo da superfície?
    — Porque trabalho numa área sujeita à despressurização. Ela respondeu. — O capacete dele, por exemplo, tem muito mais funções do que o meu, porque ele estava no jipe, na superfície planetária. Disse, apontando para o Rafael.
    — Entendi. Andressa concordou.
    — E se a gente estivesse em órbita, no vácuo, ou caminhando pela superfície de outro planeta, a tecnologia seria completamente diferente. Ela apontou para uma pilha de roupa que tinham deixado na poltrona/nave. — Primeiro, você veste o macacão refrigerado que controla a temperatura. Disse ela mostrando seu pijama vermelho. — Depois, você entra na vestimenta extraveicular, que regula a pressão em lugares sem atmosfera. Disse Helena, pegando os casacões de inverno da avó. — E, por último, o suporte de vida primário. Desta vez, ela pegou a mochila da escola. — Onde seu oxigênio é armazenado.
    — Hoje está chovendo, mas ainda muito quente pra vestir tanta roupa, uma em cima da outra desse jeito. Andressa reclamou.
    — Sem todo esse apoio, você vive no máximo, uns 90 segundos, em condições adversas, fora do planeta. Helena ajeitou sua pilha de roupas, olhando feio para a prima.
    — ‘Tá certo. Vou me lembrar disso.

  • capítulo 26﹘Cruzeiro do Sul

    Estavam montando uma expedição noturna para observar uma chuva de meteoros, as Dracônidas, evento que ocorre anualmente entre 06 e 10 de outubro. Esperavam, enquanto o pai de Helena ajustava uma luneta em seu tripé. Os meninos não se animaram muito. Leonardo estava cansado de acompanhar as noites estelares com seu pai e nem apareceu. Rafael achava que esse negócio de ficar contando estrelas cadentes do jardim era um pouco devagar.
    — Verdade o que a Helena disse? Que podemos ver até 400 estrelas cadentes? Eu vim pelos pedidos. Confessou o menino.
    O fenômeno, que costumava ser modesto em geral, naquele ano, segundo os modelos mais otimistas, apresentaria uma forte explosão de atividade com chuva de até 400 meteoros por hora, 400 estrelas cadentes, 400 pedidos.
    — Mas você tem 400 pedidos pra fazer? Pobres estrelas cadentes! Não acha muita coisa, não? Andressa reclamou.
    — Na verdade, só tenho um pedido que vou repetir 400 vezes. O menino explicou.
    — Agora até eu fiquei curioso. Você vai contar o que é? Perguntou o pai de Helena.
    — Não posso. O menino suspirou. — Quando a gente faz um pedido, só podemos contar depois que se realiza.
    — Duvido que você vai guardar segredo. Andressa o encarou com um olhar desafiador. 
    Helena riu, porque só ela sabia o que era, o último lançamento do videogame Fuga do Castelo, favorito dos dois.
    — Não vai ser por muito tempo. Ele disse, virando as costas e indo pra cozinha separar lanchinhos. Seria uma longa jornada noturna se eles não caíssem no sono antes.
    — Vamos ter uma noite perfeita! Sem nuvens! Comemorou a mais nova.
    — Verdade! Observar o céu pode ser frustrante. Qualquer luminosidade ofusca e reduz sua definição. Bernardo, o pai, completou.
    — Luzes da cidade, né? Vamos apagar tudo! Carolina correu pra se certificar de que a casa estava num escuro absoluto.
    — A luz da lua também atrapalha muito, especialmente quando está cheia. Ele explicou, fazendo Andressa suspirar. Gostava de ver seu coelhinho desenhado nas crateras; sempre corria para vê-lo na lua cheia.
    Enquanto as meninas se ajeitavam, deitadas nas cadeiras de praia, Rafael trazia um pacote de batata chips e pediu para a avó cozinhar salsicha, queria cachorro-quente.
    — Estão vendo ali? Aquela mancha preta grande, entre o Cruzeiro do Sul e Beta Centauri? O pai os ensinava a localizar. Alfa e Beta Centauri eram como uma flecha indicando o centro do Cruzeiro do Sul.
    — É uma nebulosa, conhecida como Saco do Carvão. É o Grande Vazio dos povos andinos, a passagem para os mundos superiores. Ele apontou. — Pra eles, as constelações escuras são mais importantes do que as luminosas.
    No quintal, com todas as luzes apagadas, a avó chegou com os lanches, usando uma lanterninha para enxergar o caminho. Nossa! Como seu filho adorava tudo aquilo! Desde pequeno era assim!
    Carolina se interessou:
    — É bem diferente, né? Não sabia. Os gregos desenham as constelações com a luz das estrelas. Os andinos desenham com os espaços vazios do fundo?
    — Isso. Eles também têm as constelações de estrelas visíveis, mas as invisíveis, os vazios, são mais importantes.
    — Amei! São misteriosos! Disse Carolina.
    — É o que dizem: tem as coisas que a gente sabe que sabe e as coisas que a gente sabe que não sabe, mas as mais interessantes são as que a gente não sabe que não sabe. Concluiu a vovó.

  • capítulo 30﹘Missão Resgate

    O tema da festa de aniversário da Carolina foi mitologia. O bolo e a mesa de doces tinham muitas referências daquele livro, em que o menino é semideus e sua turma de olimpianos. Aliás, foi desde a leitura desse livro que ela se encantou com a mitologia. Os livros, filmes e histórias, em geral, têm esse poder. Depois dos parabéns e das despedidas, os convidados e amigos foram embora, sobrando apenas seus primos, que ficaram até mais tarde, ajudando a abrir os presentes. Não houve surpresa. Já pelo formato, podiam adivinhar que eram livros — a maior parte deles — de detetive. Mesmo assim, Carolina rasgava o papel, entusiasmada com os novos títulos.
    Primeiro, ela leu os clássicos do Sherlock Holmes e também da irmã dele, a Enola. Em seguida, começou a série sueca, com mais de quinze títulos, e se tornou sua favorita. Depois, ela se interessou por aquela adolescente que investigou a escada secreta e o mistério do velho relógio. Conseguia ler com rapidez e adorava exibir suas coleções na estante do seu quarto.
    Como a tradução mais recente da famosa coleção sueca ainda não havia sido lançada, o pessoal teve que se virar, pesquisando novas coleções para descobrir alguma inédita. Não era tão fácil.
    Helena foi uma das que desistiram e escolheu presentear com um jogo de xadrez. Foi uma boa escolha. Carolina estava aprendendo a jogar.
    — Nossa, eu amei! As peças têm ímã na parte de baixo das peças. Vai dar pra jogar dentro do carro, quando a gente ficar com tédio numa viagem! Agradeceu à prima caçula com um abraço.
    — Sabia que você ia amar. Falei pra mamãe! Helena comemorou seu acerto.
    — Você tem tantos livros que, daqui a pouco, a gente vai ter que escrever uns originais diferentes pra você. Explicou Andressa ao trazer o seu presente. O formato não era o de um livro, e isso deixou a turma curiosa. O embrulho tinha um formato todo diferente, cheio de enfeites que ela mesma tinha feito.
    — Vai, abre logo. Ela incentivou.
    — Nem posso imaginar o que pode ser. Carolina disse, sorrindo.
    O presente era desses com várias coisas dentro. Primeiro, ela retirou uma lupa, depois uma mini lanterna, ainda veio um caderninho com capa de couro sintético e também um chapéu que imitava o famoso do Sherlock Holmes. Por último, no fundo da caixa, um livro: “Missão Resgate“. Era de uma série nova, onde a detetive realizava investigações em terras mágicas.
    — Foi difícil encontrar alguma coisa nova. O Rafael que achou na prateleira. Que olho ele tem! Viu uma coisa diferente no meio dos conhecidos. Andressa explicou. — É sobre uma menina detetive da nossa idade que percorre oito reinos diferentes, realizando suas investigações. Uma rainha foi raptada e…
    — Que combinação interessante! Missão Resgate? Tenho certeza de que vou amar! Comemorou Carolina, colocando o chapéu e testando a lupa.
    — Adorei o chapéu! Posso? Helena pediu para experimentar. Ficou muito bonitinho.
    —Deixa eu ver a lupa? Bem rapidinho? O menino pediu e ela deixou ele sumir com a lupa. Carolina foi abraçar Andressa, agradecida, e chamou Helena para participar do abraço.

  • Capítulo 11﹘Alice Através do Espelho

    A verdade é que ela tinha detestado o livro. Precisou fazer um trabalho de escola e só leu a versão infantil, reduzida. Imagina se tivesse que ler tudo. Que tédio. Ainda bem que tinha suas coleções de livros de mistério para compensar. Só daquele autor sueco, tinha lido os quinze primeiros e aguardava os dois últimos serem traduzidos.
    — Gostou? Tomou um susto quando sua avó perguntou sobre o livro nas suas mãos, “Alice Através do Espelho“.

    — Não. Achei irritante. Ela confessou. — Para complicar, é cheio de enigmas e de poesias que não ajudam em nada. Essa falta de lógica, ou lógica de sonho, enigmas, rimas e poesias, nada disso funciona para mim.
    A avó riu e balançou a cabeça:
    — Claro que não! Por que você iria gostar? Você não vive no século retrasado. Não tem que entreter convidados recitando poesias ou tocando piano na sala de visitas. As poesias, as rimas são todas referências daquela época. A avó olhou a contracapa. — Lançado em 1871, em plena época vitoriana! Mas, com certeza, tem alguma coisa interessante e diferente sobre esse livro.

    — No final, ela só estava sonhando, como no primeiro livro. Ela disse, suspirando.
    Avó Tarsila foi cuidar de suas coisas enquanto Carolina ficou pensativa. Pousou o livro na mesinha ao lado do sofá e ficou pensando em como a história era confusa e um tanto sem sentido. Às vezes, Alice conseguia determinar o que gostaria que acontecesse em seguida e, às vezes, era surpreendida por reviravoltas mirabolantes sem nenhuma lógica. Ela então se levantou do sofá e parou na frente do espelho grande na sala de visitas e, olhando em seus olhos, teve que se perguntar:
    — Será que entendi mesmo esse livro?
    Carolina estava acostumada a ler os livros mais difíceis, seus primos contavam com ela para explicar muitas coisas, mas dessa vez, não sabia o que dizer sobre aquela história. Começou a tentar olhar por dentro do espelho, ver se descobria alguma diferença no cenário da sala que aparecia invertido.
    — O que você ‘tá fazendo? Helena perguntou, pulando ao seu lado.
    — Sei lá. Vendo o que tem na sala que fica dentro do espelho. Ela respondeu.
    — Ah, ‘tá… Por causa do livro. Já acabou? Gostou? Helena perguntou.
    — Sei lá. Às vezes ele é estranho e, às vezes, meio chato. Carolina respondeu.
    — Então não gostou… A prima mais nova concluiu.
    — Mas gostei de entrar pelo espelho, de ir pra outra realidade.
    — Jura? Não pensei que o pessoal de antigamente tivesse esse tipo de livro. Multiversos? Universos paralelos? Não achei que fosse de ficção científica. De repente, você poderia me emprestar? Disse ela, ao ver que não era muito grosso, a versão reduzida.
    — Pode pegar, mas não achei tudo isso. Ela está no sonho e, de repente, comanda tudo ou é surpreendida pelas coisas mais malucas.

    — E todo sonho não é assim? Perguntou Helena, pegando o livro na mesinha. — Eu vou gostar! Disse a menina, correndo pro quintal. Queria deitar na rede.
    Carolina continuou imaginando como seria a sala da vovó, do outro lado do espelho.

  • Capítulo 20﹘Caixa de Pandora

    — Claro que você pode pegar! Minha gatinha querida, pode brincar com a caixa. Riu vovó Tarsila quando Carolina pediu uma caixa de presente que ia para o lixo reciclável. A menina agradeceu e logo sumiu. Correu ao encontro da prima.
    — Vê se você acha um tutorial na Internet pra transformar essa caixa de presente na caixa de Pandora. Veja como é que se faz. Pediu para Andressa. Animada em testar as novidades do seu objeto de desejo, a menina logo abriu o programa de buscas, e vieram várias respostas.
    — Sabia que, na verdade, a caixa não era uma caixa? Era um vaso grande, tipo daquele que eles guardavam grãos e vinho? Perguntou ela.
    — Não sabia, mas faz sentido. Carolina respondeu, se espremendo para olhar a telinha nas mãos da prima.
    — E por que você quer refazer um negócio terrível desses? Já tinha ouvido falar, mas não sabia que era assim. Andressa resmungou.
    — A minha vai ser bem diferente. Quero guardar boas lembranças. Como a pulserinha de ir no parque de pula-pula.
    — O mais certo era você guardar a pulseirinha do dia em que o Rafael quebrou o braço, estava morrendo de dor e teve que esperar muito tempo até engessar. Na caixa de Pandora havia só coisas horríveis. Doença, fome, miséria, traição, injustiça… Ela começou a listar.
    — Mas, no fundo, tinha a Esperança. Carolina continuou.
    — E aí, apaixonada pelas lendas gregas? Eles achavam a esperança uma coisa ruim? Estava ali por engano? Resolveram dar uma chance pra reverter tudo? Qual é a ideia desse pessoal antigo? Andressa ficou curiosa.
    Nesse ponto, Helena e Rafael entraram correndo na sala, suando. Deviam estar treinando capoeira no quintal.
    — Também queremos ouvir. Que história você está contando? É de quem? Pediu a mais nova.
    — Ela ‘tá falando da caixa de Pandora, que só guardava coisas pavorosas. Você sabia disso? Andressa quis saber.
    — Sabia. Até o Rafa sabia, não é? Helena cutucou o primo. Ele concordou com a cabeça, embora não parecesse muito certo disso.
    — Então. Não sei a resposta. Sei a minha resposta. Carolina disse.
    — E isso pode? Quando a gente faz prova, não funciona desse jeito. Reclamou Rafael.
    — Minha resposta é que Esperança é sempre boa. É a chave pra se virar em qualquer situação. Carolina respondeu, confiante.
    — Ou não. Pode deixar você só na espera sem chegar a lugar nenhum. Tem uma história assim, uma que eu detesto. A da Menina dos Fósforos. Andressa reclamou. Helena e Rafael não sabiam qual era, mas Carolina já tinha ouvido falar.
    — Mas essa é dos contos de fadas, não vale. Os contos de fadas de verdade sempre têm um lado bem assustador. Essa foi a resposta de Carolina, que sorria, orgulhosa.
    — E por que não vale? Se a outra vale, essa também vale. Rafael desafiou.
    — Sei lá. Não vale e pronto. Carolina perdeu um pouco a paciência. Ela só queria uma caixinha bonita pra guardar coisinhas divertidas, só isso. — Estava pensando em cobrir com papel machê? Será que fica parecendo bem antiga? Vocês vão querer me ajudar ou não?
    Só Andressa continuou com ela.

  • Capítulo 28﹘Ilusão de Ótica

    Pelo correio, chegou a encomenda de um livro. Era para a vovó que estava louca para se sentar sossegada e ler um pouco. Acontece que dois de seus filhos pediram ajuda com os netos. Justamente Helena e Carolina estavam passando aquela semana na sua casa.
    As duas primas sabiam muito bem que a avó gostava de aproveitar a companhia delas. Ela inventava brincadeiras, levava as duas para passear e tomar sorvete. Ali eles eram mimados de todas as formas possíveis, mas, naquela tarde, o cansaço chegou, e a jovem senhora só queria aproveitar a recém-chegada leitura, só por umas duas horas, só para esticar as pernas.
    Ela pensou num jeito de deixar as duas quietinhas, encontrar alguns livros de colorir, tipo o Bobbie Goods. Revirou na gaveta, onde guardava vários tipos de diversão para os netos, e encontrou um que serviria para Helena, um com imagens de ilusão de ótica. E Carolina? Ela não ia sossegar apenas com umas canetas coloridas, precisava de mais estímulo. Ia ter que apelar para a tela. 
    Gente da geração dela não gostava de jogar as crianças no mundo virtual, mas ela se prometeu que seria apenas hoje. Se tivesse imaginado que combinação desafiadora isso iria se tornar, teria pensado em qualquer outra coisa.
    Enquanto Helena caprichava, preenchendo os espaços com várias canetinhas coloridas e sentindo o cérebro se confundir com as ilusões de ótica desenhadas no livro, Carolina nem acreditou que ia ter um celular só para ela por algum tempo. Que sorte.
    — O que você está fazendo? Perguntou Helena, em voz baixa, para não atrapalhar a avó.
    — Estou montando uns desenhos com inteligência artificial. Depois a gente pode pedir para imprimir e pintar. Ela explicou animada.
    — Gostei. Posso escolher um desenho? Helena perguntou, perdendo o encanto pela pintura e querendo mexer no celular. — Quero que você peça pra ele desenhar um labirinto de espelhos, que nem a gente viu naquele filme de mistério.
    — Jura que você escolheu um negócio complicado desses, onde os reflexos vão se sobrepondo até termos imagens infinitas? Acho que o celular da vovó não dá conta, não. Acho que está na hora dela trocar para um celular mais novo.
    — A gente pode tentar. Já ouvi tanta gente dizer que a inteligência artificial vai nos substituir. No mínimo, precisa conseguir atender às coisas que a gente pede. Helena fez sua carinha de pedinte.
    — Vou tentar. Carolina falou, um tanto desapontada. — E, de todas essas coisas que você fica ouvindo por aí, não devia dar tanta atenção. Ninguém é tão esperto assim, capaz de saber como vai ser o futuro.
    — Meu pai trabalha com gente muito inteligente que fica tentando entender como vai ser o futuro. Helena reclamou porque achava o máximo que seu pai era professor de Astronomia, e as duas começaram a subir o volume da conversa, uma irritando e querendo saber mais do que a outra.
    Provavelmente porque o celular da avó não tinha mesmo tanta potência de processamento, as imagens saíram muito malucas. Ao invés de espelhos simples, apareceram espelhos com molduras douradas saindo um de dentro do outro. Numa outra imagem, muito longe de conseguir construir um labirinto, o que se via eram jardins de palácio com uns espelhos cobrindo o chão, no meio das plantas. Em outra tentativa, os reflexos não eram reflexos, porque em cada lado representavam coisas diferentes, pessoas diferentes com roupas diferentes. Foi uma explosão de falta de lógica, que chegou a provocar angústia.
    As meninas estavam quase brigando, quando seu pai tocou a campainha para buscá-la, e Helena começou a rir.
    — Papi, descobri que os computadores também sonham.

  • Capítulo 31﹘Cachinhos Dourados

    Estava frio, uma noite chuvosa.
    Quando a campainha tocou, cada um estava entretido em seus afazeres e ninguém ouviu. Quer dizer, a pessoa com menor chance de ouvir foi quem se mexeu para atender. Leonardo abaixou os fones de ouvido até o pescoço e correu para a porta.
    Entrou a Carminha, vizinha deles, com sua irmã caçula nos braços, que chorava aos berros.
    — Oi, vovó! Vovó, ‘tô com problema com a Júlia. Disse a mocinha, com seu sorriso encantador. —É a primeira vez que fico de babá enquanto meus pais estão no cinema.
    — Que delícia, que delícia! Fique aqui com a gente. Disse a vovó, enquanto pegava Júlia no colo, tentando acalmá-la. — Também estamos preparando um cineminha caseiro. Rafael tinha trazido cobertores para o chão da sala, enquanto Carolina aprendia a preparar pipoca na panela. Andressa e Helena ficaram de escolher o filme.
    Pelo visto, Andressa não era só fã dos bichinhos; gostava muito dos humanos pequenos também. Logo se interessou em ajudar com a pequena, largando Helena de lado. Era uma graça o fato de Carminha chamar a avó Tarsila de vovó, apenas por carinho.
    Quando a chorona começou a diminuir seus berros, a mocinha suspirou aliviada. Helena, poderosa, sozinha e com o controle remoto na mão, perguntou:
    — Qual filme?
    Ainda estava zapeando entre os canais quando, meio sem querer, a menina parou na animação dos Cachinhos Dourados. Foi um sucesso. Júlia parou de chorar e focou no desenho.
    — É isso mesmo? É isso que você estava separando pra gente assistir? Rafael duvidou.
    — Claro que não. Estava procurando outra coisa e caiu nisso. Helena reclamou, mas não teve jeito. Vendo a felicidade da Júlia, a vovó se pronunciou:
    — Vamos todos ver esse desenho primeiro, depois escolhemos o próximo filme. 
    Helena percebeu que seria um voto vencido. Não ia ter como convencer todo mundo a assistir a um filme de viagem espacial, e agora, todos assistiam ao desenho que deixava a pequeninha mais calma.— Júlia, vamos trocar para um filme de artes marciais? Já assistiu aquele em que o menino fica todo aceso quando se concentra? Rafael estava tentando, mas Júlia, só com dois anos, ainda nem falava direito.
    Até Leonardo parecia interessado no filme.
    — Nunca entendi muito bem essa história. Por que a menina quer comer o mingau dos ursos? Não faz sentido. Ele disse e a avó só riu, já estava entendendo o que acontecia ali. Carminha era mesmo muito lindinha.
    — Não tem a ver com comer mingau. Andressa não se aguentou. — Tem a ver com adequação. O que melhor serve para cada um. O mingau nem é muito quente nem muito frio, é morno. A cama não é muito mole nem muito dura, é no ponto. A cadeira é do tamanho certo.
    — Além de tudo, a Dedé ainda fica dando spoilers. Rafael reclamou, olhando para a avó.
    Retomando seu plano de assistir filmes sobre viagens intergaláticas, Helena comentou:
    — Papai contou que o planeta Terra vive na região da Via Láctea chamada de Cachinhos Dourados.
    — Chamada, eu não diria. Está mais para um apelido, uma brincadeira. Tipo Buraco de Minhoca, sabe? Leonardo corrigiu, rindo para Carminha, sua parceira no jogo de vôlei. Helena não acreditou que seu irmão tinha prestado atenção em uma das explicações do seu pai.
    — Mas que graça! Disse a avó, rindo. — A vida na Terra é a própria Cachinhos Dourados. Nosso planeta azul é feito sob medida para nós!
    — Ou, a gente foi feito sob medida para este planeta. Helena encolheu os ombros.